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Brasileira órfã e herdeira faz grande doação a instituto americano

publicado em 29 de junho de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Conheci essa história no recente feriado por meio de uma entrevista na Folha de São Paulo. Uma brasileira com seu marido fez uma doação milionária a um instituto americano. A doação de mais de 100 milhões de Reais tinha duas finalidades bem delimitadas: pesquisar como funciona o cérebro de uma pessoa com síndrome de Down e desenvolver tecnologias assistivas que ajudem a eliminar barreiras na vida de alguém com Down ou deficiência.

Esse investimento específico tem raiz na vida da doadora e de seu marido. Sua filha caçula é portadora da síndrome. O casal passou por todas as etapas vividas por pais que são surpreendidos pela deficiência num dos filhos. Com o passar do tempo foram transformando isso numa missão: “Minha filha mamava, dormia e eu ia para o computador, buscando tudo  que havia sobre Down. Percebemos logo que tinha muito por fazer. Não tinha cartilha, só centros de referência, mas isolados. Vimos que havia ali uma oportunidade de investir tempo, energia e criatividade”.

Na solenidade de entrega da doação ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a filha Isis, de 7 anos, e sua irmã um pouco mais velha, entraram radiantes no auditório, cumprimentado individualmente a cada um dos presentes. “Nós levamos as duas por achar que era um momento histórico para o mundo da síndrome de Down e para a nossa família. Elas assinaram a doação com a gente”.

Essa brasileira tem uma história marcante. Seus pais, grandes empresários, faleceram em desastre aéreo quando ela tinha 8 anos de idade. “Fui morar com meus tios. Graças a Deus tivemos uma vida normal, classe média. Andava de bicicleta, de carrinho de rolimã. Tive uma infância feliz, descalça, livre, subindo em árvores, conhecendo o mundo com crianças que não iam poder ir para a escola. Consumo zero. Não era isso que importava para a vida”.

Ainda falando de sua infância, a milionária brasileira conta mais uma história comovente: “Minha tia me contou outro dia, chorando, que no meu primeiro aniversário depois que meus pais morreram ela me perguntou o que eu queria de presente. Respondi: cobertor. Pedi também comida para dar para as pessoas que moravam debaixo da ponte ao lado da nossa casa. Quis passar meu aniversário lá. Não sei se foi por ser órfã, mas sofrer uma perda que mexeu tanto comigo me fez olhar mais para o próximo.”

Mais tarde, cursou Pedagogia na PUC de São Paulo. Foi aluna de Paulo Freire. “Ele dava aulas inspiracionais. Fazia provocações”. Essa vivência familiar e formação acadêmica são hoje empregadas em seu trabalho. Ana Lúcia Vilela é acionista majoritária do Banco Itaú e da Eucatex. É vice-presidente da Holding e membro do Conselho. “Tenho interesse em saber se as decisões vão ter impacto positivo para a sociedade. Me convidaram para participar pela importância desse olhar diverso. É pensar nas pessoas, em sustentabilidade, diversidade, inclusão”.

Essa entrevista me surpreendeu. Num mundo de tanta ganância, de muitos fuxicos e de consumismo exacerbado, é edificante encontrar uma grande empresária dedicada a filhos, a projetos sociais e à oferta de um olhar diverso sobre empresas e instituições assistenciais. Bragança Paulista, o Brasil e o mundo, cada vez mais, necessitam de pessoas com essa simplicidade, competência, magnificência e dedicação. Enorme aprendizado reside na necessidade de inserir responsabilidade social nas empresas e em inserir empreendedorismo nas instituições assistenciais.