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Bom senso e racionalidade no meio de muitas labaredas

publicado em 7 de setembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

As queimadas de matas na  Amazônia foram manchetes recentes na imprensa nacional e internacional. Simultaneamente, foram alvo de muitas línguas de fogo, palavras jogadas ao vento. É quase impossível esconder com palavras aquilo que é visível aos olhos. Inclusive quando o discurso é feito por altos mandatários da nação.

No meio de tanto barulho, um fato passou quase despercebido pela opinião pública. Ocorreu em 28 de agosto. Sete ex-ministros do meio-ambiente se reuniram em Brasília para recomendar a continuidade de políticas ambientais implementadas nos últimos 25 anos: “Pela primeira vez na história do país, ex-ministros do Meio Ambiente de todos os governos anteriores desde a redemocratização se reuniram para denunciar e divulgar uma carta contra a total destruição de todas as políticas de proteção ao Meio Ambiente”.

Antes, em maio, os mesmos ministros realizaram uma reunião de avaliação dos avanços e recuos do último ano, diante da complexa questão da conservação do meio ambiente. Participaram da reunião e da entrevista coletiva os ex-ministros Rubens Ricupero (1993-1994), José Sarney Filho (1999-2002 e 2016), José Carlos Carvalho (2002), Marina Silva (2003-2008), Carlos Minc (2008-2010), Izabella Teixeira (2010-2016) e Edson Duarte (2018). O ex-ministro Gustavo Krause (1995-1998) não pode comparecer, mas assinou o comunicado divulgado no encontro.

Esses ministros atuaram em governos de épocas e partidos bem diferentes: Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer. Tinham motivos para um longo bate boca, na medida em que um sucedeu ao outro, precisou fazer correções ou  acelerar processos. Optaram pela busca de uma convergência em torno de tema tão complexo.  No texto final do encontro e nas entrevistas, indicaram que é urgente que o Brasil reafirme a sua responsabilidade quanto à proteção do meio ambiente e defina rumos concretos que levem à promoção do desenvolvimento sustentável e ao avanço da agenda socioambiental, a partir de ação firme e comprometida dos seus governantes.

Essa atitude de ex-ministros, hoje fora do governo, suscita pelo menos três reflexões. A primeira sugere que temas complexos como o do clima, das florestas nativas e do meio ambiente requerem observação ao longo do tempo, estudo e análise constante, metodologia científica e atuação de especialistas, sempre com foco em resultados. Não é assunto para leigos, para pessoas ou empresas que tenham interesse financeiro imediato na exploração de terras, rios e florestas.

A segunda reflexão está ligada ao fato desse grupo se juntar sem antes ter trabalhado num mesmo governo. Isso é muito raro. Indica que o tema da conservação da Amazônia transcende a interesses particulares. Vai além de programa de um partido político, de um plano de governo. É uma questão de Estado. Coloca em jogo o presente e o futuro de grande parte da população brasileira que vive naquela região e tem peso em questões que preocupam estudiosos quanto ao aquecimento global e, inclusive, quanto ao futuro da vida das espécies sobre o planeta.

A terceira reflexão é a de que ao nosso redor existem problemas a serem solucionados, que dependem de nossa participação pessoal. Cada um de nós pode dar uma contribuição mais qualificada para problemas familiares, de nossa rua ou bairro, de nossa igreja ou entidade assistencial, de nosso município ou estado. A cidadania reside nessa contribuição para a melhoria de condições de vida.