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Avanço de tecnologia resulta em mudança de comportamento

publicado em 20 de maio de 2022 - Por Antônio Carlos de Almeida

Já abordei aqui o fato antigo das salas de espera de consultórios e escritórios disporem de revistas para entretenimento de pacientes e clientes. Alguns tinham revistas e jornais novos, eram oportunidade de informação e atualização.

Outros tinham publicações antigas, com folhas surradas, algumas rasgadas, passavam a impressão de que o profissional que ali atendia também era desatualizado. Em outra ocasião escrevi sobre a letra de médico. Certa ocasião fui a uma farmácia com uma receita. Só sabia que tinha dor de ouvidos. Era a única dica que conseguia dar aos atendentes, enquanto a receita passava de mão em mão em seguidas tentativas de decifrar qual era a prescrição.

Hoje já não existem revistas em salas de espera. Cada paciente ou cliente passa o tempo com o próprio celular: vê dali como estão as coisas em casa, informa que vai se atrasar para o trabalho, que está esperando atendimento. E buscam na internet informações relativas aos sintomas. Quando chega a sua vez, acham que já conhecem mais sobre a moléstia do que o especialista que os recebe. Estão prontos para uma discussão científica se for necessária. Continua incrível esse poder de obter informações instantâneas de assuntos dos quais nos aproximamos pela primeira vez. Assim como é impressionante a possibilidade de estarmos fisicamente longe, sem perder a possibilidade de comunicação com as pessoas de nosso relacionamento diário. Embora a chegada desse meio de comunicação seja recente, todos lidamos espontaneamente com isso. Parece que sempre fez parte de nosso dia a dia. No entanto, quantidade e agilidade de informações não significam, de imediato, conhecimento. Não substitui o profissional que se preparou academicamente e que tem prática recorrente na área. Pode nos ajudar no diálogo com ele, mas não permite confronto de opiniões. Ainda precisamos evoluir bastante na criticidade das pesquisas que fazemos na internet.

De outro lado, os médicos, principalmente aqueles que atuam em pronto atendimento, escrevem à mão menos do que antes, mas se defrontam com a tarefa de digitar diagnóstico, encaminhamentos e receituário. Já vi situações em que em meio minuto o médico ouviu o paciente, deu uma olhadinha no seu rosto para em seguida passar alguns minutos digitando no prontuário eletrônico. Muita digitação para pouca interação com paciente, avaliação dos sinais vitais e explicação do que pode estar ocorrendo. Imagino que possa estar aumentando entre médicos casos de lesão por esforço repetitivo (LER).

Parece-me que essa escrita rápida e quase ilegível dos médicos, assim como esse tempo escasso para examinar pacientes, não é uma escolha pessoal. Estão relacionados com a alta demanda de pacientes diante de poucos médicos escalados para o plantão. Nos prontos socorros fico impressionado com a capacidade dos profissionais da saúde em guardar nomes de pacientes, suas moléstias e estágio de medicação quando, não raramente, estão cuidando simultaneamente de dezenas de pessoas. Esses momentos nos mostram que os avanços da tecnologia facilitam e agilizam processos, mas não substituem o cuidado humano.

A comunicação calorosa entre pessoas, a explicação atenciosa daquilo que está ocorrendo, as orientações precisas daquilo que será feito e os cuidados que ficarão por conta do próprio paciente ou de seus acompanhantes são centrais em todo atendimento. Há uma tendência de especialistas das mais diversas áreas explicarem coisas simples com termos técnicos. Comunica-se melhor o profissional que usa expressões simples na orientação de seu paciente ou cliente. Apesar das informações que estes buscam na internet, ainda é distante o percurso a ser feito de forma que todos possamos ter uma compreensão mais técnica daquilo que nos envolve no dia a dia. Como sempre foi, a comunicação continua sendo uma via de duas mãos entre aquele que fala e aquele que ouve, entre aquele que comunica e aquele que recebe a comunicação. A boa comunicação resulta do esforço de ambos.

 

Antonio Carlos de Almeida

almeida.45@hotmail.com


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