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Árvores não crescem initerruptamente até o céu

publicado em 16 de janeiro de 2021 - Por Antônio Carlos de Almeida

Houve um tempo em que empresas e empregos pareciam durar a vida inteira. As pessoas se formavam, entravam numa empresa e ali ficavam durante muitos anos.

Na maioria das vezes fazendo a mesma coisa. Mais recentemente isso tem mudado muito. Jovens inclusive com boa formação escolar encontram sérias dificuldades em conseguir uma vaga compatível com suas aptidões, formação e experiência inicial. Hoje é mais comum que consigam o primeiro trabalho na condição de terceirizado. Sabem de antemão que o tão almejado trabalho e renda são temporários.

Mais ainda, mesmo que sejam efetivados, precisarão estudar continuamente, fazer novos cursos, adquirir novas especializações para continuarem competitivos.

Curiosamente, o mesmo ocorre com empresas pequenas e grandes. Parecia que elas duravam para sempre. Mas a história e numerosos fatos recentes demonstram que é grande o número daquelas que entram em permanente crise, daquelas que são absorvidas por outras corporações. Sem falar naquelas que se arrastam sob a pressão de crise permanente, consumindo quase toda energia disponível. Duas são as principais causas desse tipo de crise: descontrole administrativo ou o fato de tecnologias, produtos e serviços se tornarem obsoletos no contexto das inovações que ocorrem aceleradamente nos mais diversos ramos de atividade econômica.

Peter Drucker, o papa da administração moderna, numa de suas últimas entrevistas (2006) à revista HSM Management , afirma que “O bom Deus fez as coisas de tal modo que as árvores não crescem ininterruptamente até o céu. E não há nenhuma empresa que vai crescer para sempre e sair-se bem para sempre. O período médio de sucesso para a maioria das empresas bem-sucedidas é de 30 anos. Pouquíssimas companhias continuam bem-sucedidas por um período contínuo mais longo do que isso.

O que geralmente acontece é que, depois, elas não fecham as portas, mas, mesmo que administradas excepcionalmente bem, passam os próximos 20 ou 30 anos apenas equilibrando-se.”

Isso ocorre continuamente. Não há necessidade de grande esforço para fazer uma lista de empresas locais, nacionais e internacionais que encerraram atividades. Em alguns momentos de acelerada inovação tecnológica ou de crise econômica, esse tipo de falência ocorre mais intensamente.

Há um ano a pandemia do coronavírus ceifa vidas, empresas, trabalho e renda. O nosso trabalho de cada dia e amplo conjunto de empresas encontram-se num período de instabilidade. Ambos requerem a dedicação de sempre, muita atenção diante daquilo que está ocorrendo ao nosso redor, análise aprofundada e a busca de possíveis alternativas.

A tecnologia acessível a todos, a intensa movimentação de veículos de passeio e de carga, lojas sortidas, supermercados movimentados, praias concorridas e ampla oferta de lazer nos dão a falsa impressão de que tudo está bem. Não é verdade. Não são poucas as profissões que se encontram em processo de esvaziamento ou de extinção. Não são poucos os negócios que encontram grande dificuldade de manter o equilíbrio já vivido em épocas anteriores. Milhões de alunos de todos os níveis escolares já entraram em defasagem equivalente a um ano inteiro de aprendizagem, o que certamente terá impacto negativo ao longo da vida.

Ainda continuam muito necessários todos os cuidados inerentes à segurança sanitária. No entanto, não podemos perder foco e concentração naquilo que almejamos. Precisamos redobrar nossa capacidade de análise. Existem trabalhos e empreendimentos que não farão sentido daqui para frente.

Deverão ser encerrados como bananeiras que já deram cacho, abrindo espaço para novos projetos. Estejamos preparados: crises, inclusive as mais graves, não duram para sempre. Muitas foram as atividades profissionais que se transformaram em períodos de crise, assim como numerosas são as empresas que surgiram nesse tipo de contexto. Em 2021, cientistas, empresas e governos que estão produzindo em tempo recorde vacina nova contra vírus surpreendente, é um bom exemplo a ser seguido. Problemas novos demandam soluções inéditas e geram grandes oportunidades.