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Após o otimismo infundado, a dura realidade

publicado em 23 de novembro de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso

A eleição de Jair Bolsonaro só será entendida após alguns anos. Como ela será vista? Quais serão nossas ponderações sobre outro fenômeno político nas eleições após a eleição de Fernando Collor?

Por enquanto, a grande novidade da sua eleição é o caráter determinante das redes sociais que contribuíram para a sua vitória eleitoral. Deve ser lembrado, no entanto, que muito do que foi divulgado sobre os demais candidatos e sobre o próprio candidato eleito eram o que se chama de fake news, uma forma de estrangeirismo que confunde e que diverte quem os propaga ou lê.

Além disso, questões curiosas, anteriores a posse do presidente eleito, chamam a atenção. Por exemplo, ele foi eleito sob a bandeira do combate à corrupção, mas figuras escolhidas para compor o novo governo, que já não parece tão novo, participaram ativa e efetivamente de governos comprovadamente corruptos, como os governos de Sérgio Cabral, do RJ, e do atual presidente Michel Temer. Ao que tudo indica, este será presenteado com uma embaixada após o término do seu governo, algo que parede, no mínimo, conveniente já que contra ele pesam diversas acusações que seriam averiguadas no término do seu mandato.

Por falar em conveniência, sem nenhuma surpresa o juiz Sérgio Moro, um dos novos ídolos nacionais, foi convidado e aceitou fazer parte do futuro governo. Não há surpresa depois de tudo o que o tão renomado juiz protagonizou ao longo dos dois últimos anos, até mesmo a liberação de trechos do depoimento do petista Palocci precisamente na semana final das eleições. Outra feliz e bela coincidência com ares de conveniência.

Paulo Guedes, neoliberal convicto, estudou na Universidade de Chicago, Ministro da Fazenda, escolhido para diminuir drasticamente o Estado brasileiro via operações já conhecidas como as privatizações e as reformas tributárias e previdenciárias, ambas necessárias, mas sob quais moldes? A escolha do ministro já responde a pergunta. Só falta agora avisar os seus eleitores sobre as drásticas mudanças pensadas pelo futuro ministro. Fica a pergunta – por que algumas categorias não farão parte da reforma previdenciária? Isso não fere a isonomia de direitos, garantida pela

Constituição, e cria uma camada de privilegiados com regras particulares e que os beneficiam em detrimento dos demais?

E o astronauta Marcos Pontes? Ou seria cosmonauta? Escolhido como ministro da Ciência e Tecnologia por quais razões ou quais motivos? Por ser membro das Forças Armadas ou por alguma contribuição significativa para a ciência brasileira? É justo pensar que a sociedade científica brasileira e as Forças Armadas tenham nomes mais preparados para tal cargo.

Entretanto, o que aconteceu com os discursos que marcaram a retorica do candidato eleito, de seus filhos e de seus eleitores? Se eram jogos de cena, eram mentirosos. Se estão latentes, continuam perigosos. O que aconteceu com eles?

A História republicana brasileira e de suas eleições, com voto indireto, de cabresto, aberto ou secreto, mostra que o caminho para a consolidação de uma sociedade justa e democrática é longo e se apresenta cada vez mais distante.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com