Colunistas

Apavora e assusta

publicado em 22 de junho de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Levei minha filha numa noite destas a São Paulo, para um evento cultural. Chegando lá, tivemos um pequeno susto. Sabia o caminho, mas preferimos consultar um aplicativo eletrônico. Este nos indicou o caminho mais curto, rápido e menos seguro. Fez-nos passar nas proximidades da Estação da Luz, onde já se percebe transeuntes da Cracolância. Assusta porque é muita gente com aparência depauperada.

O teatro estava localizado numa região paulistana que já foi nobre: Avenidas São João e Ipiranga, Praça da República e Consolação. Hoje a região é frequentada por várias tribos, todas com particularidades marcantes. Parece haver um esforço grande no sentido de se apresentar diferente do comum.

Enquanto ela participava do evento, fui resolver rapidamente um problema pessoal. Voltei em tempo de esperar durante mais de uma hora. Confesso que fiquei com medo. Não me sentia bem dentro do carro parado, mais receio ainda senti ao fazer breves caminhadas, e nem mesmo diante do espaço cultural onde estavam pequenos grupos de pessoas e o porteiro, me senti tranquilo. Ficava um pouco ali, voltava para o automóvel, mudava o estacionamento para outros locais.

Em todos eles pessoas andavam sem parar. Um pouco agachadas, sempre com passos rápidos. Iam e voltavam. A maioria homens jovens, muitos fisicamente debilitados, alguns falando sozinhos. Pareciam não perceber o que estava ao redor. Impressionou-me observar como o mesmo saco de lixo era revirado dezenas de vezes. Tive a impressão que buscavam ali algo que salvasse pelo menos aquela noite. Não eram simples catadores de material para reciclagem.

Ocorreu-me pensar que aqueles transeuntes tiveram pai e mãe em sua infância, que chegaram a estudar em escolas do seu bairro ou cidade de origem, que foram adolescentes promissores. Ocorreu-me também pensar que possivelmente não conviveram com pais que lhes dessem carinho e orientação. O fato é que estavam irremediavelmente perdidos, em busca de algum paliativo para aquela noite, sem se preocupar com outros dias e noites que virão.

Estava no coração da maior e mais desenvolvida cidade do país. Tristemente essa mesma penúria está presente em outras cidades, numa relação diretamente proporcional: quanto maior o centro urbano, maior a quantidade daqueles que perderam o rumo da vida.

Na raiz estão problemas pessoais e familiares. Não só. Estão problemas estruturais. Enormes vazios existenciais que não são preenchidos por produtos de nossa sociedade baseada no consumo desenfreado. Falta de acesso a trabalhos almejados. Desencontros afetivos. Falta de orientação espiritual. Queda e dificuldade de se levantar. Não é tarefa fácil, mesmo para especialistas e missionários muito dedicados, recuperar alguém que viva algum tempo na rua ou que experimentem algum tipo de droga lícita ou ilícita.

Resta-nos como uma das alternativas mais eficazes a prevenção. Filhos de todas as idades, mais do que brinquedos e outras diversões, requerem atenção, diálogo, carinho, orientação espiritual e disciplina. Esta anda um tanto ausente da educação atual de filhos. A disciplina quanto a horários de comer, estudar e se divertir; a disciplina de se dedicar a atividades que exigem esforço e a convivência respeitosa com familiares e amigos de todas as idades faz toda a diferença para uma adolescência, juventude e vida adulta saudável.