Colunistas

Anomia e desalento

publicado em 25 de outubro de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso

Há pouco o que dizer, pouco o que escrever, mas muito a se lamentar.
As escolhas ruins, as mentiras, os discursos carregados de imprecisões, de ódios, de mágoas contaminaram muitos e venceu.

De fato, só existe um vencedor nesse processo todo, o Desalento.

Desalentados assistimos a onda de ódio e de fanatismo que quase nos afoga, que drena nossas forças e que apresenta um cenário desolado, pequeno e violento. Os discursos se tornam cada dia mais violentos, sem razão e sem propósito. As falas ferem, matam os diálogos e vislumbram o nosso futuro.

Logo, seremos só sussurros, só lamentos, com aquele choro preso no peito, entalados em nossas gargantas e sufocando nossas palavras.

Já perdemos muito, no entanto, ainda não perdemos tudo.

Durkheim, pai da sociologia moderna, diria que passamos por um momento de anomia, ou seja, carecemos de regras sociais de conduta e, por isso, vemos nosso quadro social cindido, com fraturas imensas, com danos que parecem irreparáveis.

As soluções para momentos como esse são complexas, difíceis e dependem do empenho honesto de todos, sem as falsas promessas, sem os milagres dos falsos ídolos que se apresentam a todos nós.

Pouco nos resta, além do desalento. Sentimento triste que se coloca entre a melancolia e o desespero, aquilo que faz a respiração ficar pesada, os passos dolorosos, o caminho quase impossível.

É bom que nos acostumemos com tal sensação.

É o melhor aprender a engolir a seco o que nos aguarda.

É bom refletir em segredo, buscar um caminho para o bom senso. Afinal, é para isso que também serve o desalento.

E, portanto, não há muito o que esperar e nem o que escrever.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com