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Algumas profissões requerem contínua doação durante longo tempo

publicado em 17 de outubro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Tempo é cada vez mais um bem escasso. Todos corremos muito para fazer mais em menos tempo. Ainda assim fica a sensação de que ele voa, desaparece antes de concluirmos as coisas que desejamos. Questões decisivas para a nossa vida são definidas em alguns poucos minutos. Doenças graves são diagnosticadas e medicadas muito rapidamente. Não raramente saímos de consultas médicas com a sensação de que nossos sintomas requisitavam mais tempo, análise e orientação. Antes esperávamos uma correspondência durante dias, parecia-nos natural; na comunicação instantânea de hoje, internet um pouco lenta deixa-nos absolutamente desesperados.

Nesse ritmo alucinante, impressiona-nos observar que algumas profissões continuam demandando muito tempo e contam com profissionais dispostos a empregar todo o tempo necessário. Não apenas o tempo, mas também atenção, persistência, energia e dedicação. É o caso de fisioterapeutas, cujo dia é comemorado em 13 de outubro. Também ocorre com fonoaudiólogos, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros cuidadores, dentre outros.

Quero destacar aqui profissões que demandam quase uma hora em cada sessão, que dependem de várias sessões ao longo de uma única semana e que se estendem ao longo de meses e anos. Elas requerem pessoas especiais, com muito jeito para lidar com pessoas em situações difíceis de recuperação. Sua atuação é bastante complexa, vai muito além de técnicas específicas. É comum terem de lidar com rejeição do paciente, tendo de minar resistência e motivar para continuar mais um pouco. São artistas no sentido de fazer o paciente entender que vale a pena todo o esforço, sendo a dor presente em cada movimento e caminho a ser percorrido na conquista de dias melhores.

A relação entre profissional e paciente em todas essas profissões não é pacífica durante todo o tempo. O progresso não é linear e constante. São frequentes recaídas, rejeições e abandonos. Estando próximo, não raramente o paciente acaba sendo grosseiro em relação ao profissional. Cabe então a este relevar todo mau humor, fazer ver o progresso havido a partir do instante inicial dessa relação e gerar empatia para uma nova sequência de sessões. Com o passar dos meses e anos, frequentemente geram relações mais íntimas do que aquelas vividas com a maioria dos parentes.

Aparentemente, fisioterapeutas, enfermeiros e cuidadores lidam apenas com o físico do paciente; por sua vez, aparentemente, psicólogos e psiquiatras lidam apenas com a estrutura psíquica. Na verdade, todos lidam com todas as dimensões da vida do paciente. Isso requer habilidade, interação e doação. Imagino que no final de cada jornada esses profissionais se encontram esgotados, tal a intensidade e a complexidade da doação diária. Imagino que sofram muito ao perceberem que o paciente retrocede, mais ainda quando depois de longa convivência acabam vivenciando a partida definitiva do paciente.

O significado da atuação de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, psiquiatras, cuidadores, dentre outros, é expressivo em si mesmo. Mas essa coisa de dedicar grande quantidade de horas, dias e meses para conseguir resultados, nos ensina que a doação do tempo necessário é uma arte a ser desenvolvida em todas as profissões. Correria leva-nos à superficialidade. Dedicar todo tempo necessário no desenvolvimento de nosso ofício é um diferencial importante naquilo que fazemos. Esse valor é facilmente percebido por aqueles que procuram nossos serviços.