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Algumas fases da vida têm muitos encargos

publicado em 23 de março de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Surgiram no Brasil, nos últimos anos, alguns institutos religiosos. Um dos mais conhecidos é a Canção Nova. Começou no Vale do Paraíba, tem TV com presença nacional. Começou no bojo da Renovação Carismática Católica. Recebeu forte influência dos Salesianos, de onde procede o seu fundador, Pe. Jonas Abib. Cresceu rapidamente, hoje suas comunidades estão presentes em várias localidades do Brasil e do exterior.

Dentre suas características encontram-se o estudo bíblico, a alegria de viver e o canto como expressão desta e a dedicação integral a Deus, desempenhando serviços diretos de comunicação ou de apoio a esta. Uma das características bem próprias da Canção Nova é que seus membros, jovens ou adultos, homens ou mulheres, casados ou solteiros, leigos ou sacerdotes, vivem numa mesma comunidade de vida e de trabalho missionário.

Vários são os níveis de compromisso daqueles que participam da Canção Nova. O nível mais exigente é o de dedicação integral à vida e aos serviços próprios do instituto. Neste ponto é bem parecido ao de freis ou freiras que se dedicam à vida religiosa em congregações mais antigas. Entregam totalmente o próprio viver por meio dos votos de pobreza, obediência e castidade. O que fazem e para onde vão são decididos por superiores e seus conselheiros.
O missionário e cantor Dunga participa da Canção Nova desde o início.

Ali se casou, nasceram os filhos e, agora, os primeiros netos. Sempre teve uma agenda muito cheia de pregações, shows, programa de TV, vida interna no Instituto e cuidado da família. No ano passado, avaliando a quantidade e a exigência de tempo e de esforço dessas atividades todas, solicitou um abrandamento dos compromissos internos junto à Canção Nova. Justificou da seguinte forma: “53 anos de idade é um período em que a pessoa tem compromissos familiares para cima e para baixo”. Queria dizer que nessa fase da vida, a pessoa cuida de si mesmo, do cônjuge, de pais, de filhos e de netos. Muita gente a ser cuidada ao mesmo tempo.

De fato, existem algumas fases da vida em que os encargos parecem superar as nossas forças. É assim para o recém-nascido que hoje é colocado em creche, para os estudantes de todas as idades diante das provas, para o jovem no momento da escolha, do vestibular e início da faculdade, para o adulto diante dos primeiros empregos ou início de um empreendimento, para o pai e a mãe de primeira viagem, para todas as idades durante um período de desemprego, para aqueles que estão bem colocados no mercado de trabalho mas que trabalham dia e noite na empresa e, cada vez mais, à distância.

Falamos pouco de primeira e segunda idade, respectivamente, tempo de semear e de produzir. Falamos mais de terceira idade, tida como tempo de descansar, saborear as conquistas realizadas ao longo da vida produtiva. Embora hoje mais idosos viajem, participem de grupos da terceira idade e tenham mais recursos médicos para uma vida saudável, é crescente o número daqueles que continuam sobrecarregados, cuidando de pais muito idosos, dando apoio a filhos que não decolaram, ajudando no cuidado dos netos e procurando formas para complementar os recursos da aposentadoria cada vez menores para as necessidades do cotidiano.

Essa sobrecarga pesa sobretudo para as mulheres da terceira idade. São mais facilmente engolidas pelas necessidades próprias, de cônjuges, filhos, netos e pais. Não são poucos os cuidados diários, não raras as necessidades de apoio financeiro.

É importante a lição de Dunga, cantor e missionário da Canção Nova. Existem momentos em que é necessário avaliar tudo o que se faz, separar aquilo que pode esperar daquilo que é inadiável, distinguir o essencial do secundário, para continuar tendo energia suficiente para dar conta daquilo que queremos fazer e daquilo que precisamos fazer. Algumas fases da vida têm muitos encargos, requerem planejamento, decisão, escolhas e a dedicação de sempre.