Colunistas

Alegria além da felicidade

publicado em 8 de junho de 2019 - Por Pastor Jessé

Em fevereiro de 2012, depois de entrar noite adentro farreando intensamente no requintado bar, a renomada cantora Whitney Houston se retirou e subiu para seu luxuoso quarto no famoso hotel Beverly Hilton. No quarto, entregou-se a um coquetel de drogas e álcool, e de madrugada foi encontrada morta dentro da banheira. Whitney Houston tinha muita felicidade à sua disposição, mas lhe faltava alegria.

A atual ausência de reflexão aprofundada causa a ausência de discernimento quanto às duas experiências da felicidade e alegria. Consequentemente, em geral se assume que as duas se referem à mesma coisa, criando uma visão superficial da vida e um entendimento pífio sobre o existir.

Os pensadores gregos muito debateram o conceito de felicidade (makarios). O assunto e reflexão têm sua complexidade, mas, é útil a elucidação que, para os gregos, felicidade era a liberdade das preocupações normais da vida. Então, seria a condição gozada por aquele que encontrava a boa sorte: dinheiro, saúde, filhos, etc. Nestes dias felicidade é aquilo que toca a faculdade sensorial, como o dinheiro, poder, viagens, festas, lazer, esportes, status, sexo, sensório alterado pelas droga/álcool, etc.

Mas os gregos também falavam em alegria (chara). Era descrita como a “culminação do ser” ou “bom humor da alma”. Entendiam eles, que “chara”, ou alegria, era encontrada somente em Deus e podia ser partilhada ao ser humano através da virtude e sabedoria. É relevante notar que “chara” não era primordialmente o oposto de tristeza, mas do medo, ou seja, sem o medo, dominava a alegria.

No Novo Testamento, escrito no grego antigo, o termo “makarios”, ou felicidade, foi apropriado e interpretado dentro da visão bíblico-cristã. Foi usado para apontar uma condição privilegiada que alguém desfrute, mas como sendo uma dádiva divina. Assim, mesmo na visão bíblico-cristã o termo “felicidade” mantém referência a uma certa condição dada por Deus,que é adicionada ao ambiente ou vida do indivíduo.

Porém, na visão bíblico-cristã, alegria não é proveniente de algo que Deus concede ou adiciona ao ambiente ou vida do indivíduo, e sim algo que Deus infunde no íntimo da pessoa. É um estado interior que nasce somente quando no íntimo da pessoa se acha a presença de Deus, em relacionamento harmonioso e eterno.

Portanto, a felicidade envolve, em formas diversas, a dimensão externa, mas a alegria é interna. A felicidade é circunstancial, e alegria está além e acima da circunstância. A felicidade é contingente, a alegria é estável. A felicidade envolve coisas, situações e pessoas. Mas a alegria depende unicamente do relacionamento do indivíduo com Deus.

Vivemos num mundo onde vender a felicidade é o grande negócio, inclusive na esfera religiosa de fachada cristã – o mercado da fé da prosperidade e psicologia pop. Aliás, na religião atual a busca é pela felicidade, ou seja, por aquilo que se consiga de Deus, e não pela alegria que vem do encontrar e desfrutar do Deus eterno.

O prazer não está primeiramente em Deus, mas na realização de desejos que se quer que Deus conceda. O ser humano atual, cada vez mais longe de Deus, tem agravado seu vazio e melancolia, sendo um freguês insaciável do mercado da felicidade que domina a publicidade e mídia, inclusive o de natureza religiosa.

Nesse mercado o grande equívoco é que a felicidade é vendida como alegria, isto é, o produto oferecido não corresponde ao embrulho e rótulo. E o equívoco se amplia porque os fregueses, estando carentes de alegria em suas almas, pensam que necessitam felicidade. São semelhantes ao sedento no deserto que, ao ver uma miragem de um oásis, acaba bebendo areia, intensificando mais sua sede. E esse equívoco conduz a uma confusão trágica.

O arguto pensador C. S. Lewis, ponderou lucidamente em seu livro “Surpreendido pela Alegria”: “Eu às vezes reflito se todos os prazeres não são substitutos da alegria.”

A alegria é consequência de se saber que se chegou ao viver eterno na presença de Deus e em paz com Deus. E isso apesar da variação de circunstâncias e condições. Séculos antes de Cristo, mesmo em meio a enormes adversidades, depois de se acertarem com Deus, o povo de Israel ouviu de Neemias, o líder deles: “… a alegria do Senhor é a vossa força” (Bíblia, Ne 8:10).

A paz com Deus, eternamente assegurada, que é a fonte da alegria, é possível apenas em Cristo, mediante a morte substitutiva dele na cruz – o meio suficiente para o perdão gracioso e pleno. Falando da alegria divina que vem através dele, Cristo afirmou aos seus discípulos: “…ninguém lhes tirará a alegria” (Bíblia, Jo 16:22). O cansaço da busca da felicidade mundana será ultrapassado somente quando se experimentar o que afirma o título, em português, da música de Bach: “Jesus, a alegria dos homens”.