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Agruras, sofrimento fé e felicidade de mãe

publicado em 1 de setembro de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

No período de 332 a 387 dC, no norte da África, atual região da Argélia, viveu Mônica, casada com Patrício e mãe de 3 filhos, dentre os quais Santo Agostinho. Ela se preocupava muito com o modo de vida do esposo e deste filho.

Aquele violento, rude e pagão. Este se deliciava com todos os prazeres disponíveis naquela época. Inquieto, na busca de respostas para as questões existenciais envolveu-se com meias verdades e muitas mentiras. A cristã Mônica se consumia em oração, almejava a conversão de ambos para uma vida equilibrada, sadia e, principalmente, agradável aos olhos de Deus.

Não eram poucos nem pequenos os sofrimentos e os ultrajes dessa esposa e mãe. Certa ocasião, não encontrando respostas para a sua prece angustiada e contínua, recebeu este conselho durante uma direção espiritual: “Continue a rezar, pois é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas”.

Decorridos 16 séculos, milhões de mães continuam chorando copiosamente por seus filhos, pobres e ricos, pequenos e grandes, por causa de doenças, descaminhos e dificuldades deles se encontrarem na vida. Sofrem as mães durante a gravidez. Desconforto, insegurança e ansiedade costumam ser companheiras durante esse período. Às vezes, alguma deformidade diagnosticada precocemente oferece acentuada apreensão.

A dor de parto é tida como uma das mais agudas dentre aquelas suportadas pelas pessoas. A amamentação não é prazerosa para todas, algumas alimentam seus rebentos com enormes sacrifícios. Em geral, noites bem dormidas deixam de existir por longos anos. Apesar de todos os avanços da medicina, doenças corriqueiras e raras trazem sempre preocupações.

A vigilância faz-se necessária a todo momento durante a infância. Vigilância diante de riscos de quedas e ferimentos. Vigilância diante da possibilidade de um sequestro em local público. Vigilância diante de ameaças de violência sexual, inclusive da parte de alguma pessoa próxima. Vigilância diante das influências perniciosas que invadem os dormitórios infantis por meio da TV e internet. Acompanhar o desempenho escolar é outra tarefa materna permanente.

Todo esse cuidado, no entanto, não impede a possibilidade de sofrimentos ainda mais atrozes, típicos dos dias deste século XXI. Assaltos, mortes repentinas e violentas, dependência química, associação de filho ao tráfico e a outros tipos de bandidagem. A visita a filhos em presídios é extremamente penosa. Não é raro que filhos jovens e adultos, sem encontrar o próprio caminho, sem alcançar o próprio sustento, continuem dependendo da mãe inclusive sob o aspecto financeiro.

Quando a mãe imagina que está chegando a hora de viver seus projetos pessoais, também não raramente costumam chegar netos a serem cuidados integralmente pela velha mãe, agora avó. Desta vez, ela já conhece grande parte daquilo que lhe espera doravante. Também causam doação integral, para além das forças que se imagina de antemão, o cuidado de filhos portadores de doenças graves e de síndromes sabidas para toda a vida.

A morte de um filho antes da morte da mãe é sempre relatada como o arrancar de uma grande parte dela mesma. Em muitos desses casos é a própria fé em Deus e em dias melhores que fica abalada. Por que isso está acontecendo comigo? Até quando? Por que nem mesmo Deus me ouve?

Mônica, a mãe fervorosa e fiel, nunca deixou de interceder com amor e ardor, durante 33 anos, e antes de morrer, em 387 dC, ela mesma disse ao filho, já convertido e cristão: “Uma única coisa me fazia desejar viver ainda um pouco, ver-te cristão antes de morrer”. Por esta razão, o filho Santo Agostinho, que se tornara bispo e doutor da Igreja, pôde escrever: “Ela me gerou seja na sua carne para que eu viesse à luz do tempo, seja com o seu coração para que eu nascesse à luz da eternidade”.

De fato, para todas as mães, as que sofrem muito e as que têm uma vida um pouco mais amena, apenas um propósito move a sua vida: ver a plena realização e a felicidade de cada um de seus filhos. Na comemoração de Santo Agostinho (28 de agosto) e de Santa Mônica (27 de agosto) trago de novo o pensamento agostiniano que se aplica bem a todos os momentos da vida de nossas mães: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.