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Agro defensivo-tóxicos: um problema grave e negligenciado

publicado em 24 de abril de 2018 - Por Ambiente em Pauta

A revolução verde, segundo alguns autores, nasce da migração da tecnologia da indústria química bélica desenvolvida durante o período das guerras do século XX. Seu aparato técnico, inicialmente desenvolvido pelo objetivo de exterminar, será voltado para a produção de alimentos em larga escala.

O que deveria ser um avanço para segurança alimentar no mundo e uma reviravolta de uso da tecnologia, se torna um problema grave de saúde pública e ecossistemas. A revolução verde está relacionada ao aumento do uso de tecnologia para produção agrícola. Ela tem início nos países centrais e gradativamente se espraia, de modo diferencial, pelos países do mundo.

Novos defensivos agrícolas criados com função de exterminar pragas, uso de químicos para ampliar a fertilidade do solo e mecanização do campo, com ampliação do uso de maquinário, serão algumas das marcas da revolução verde. A princípio, é essa revolução que exercerá pressões de mudança da estrutura e proporção populacional agrária/rural principalmente nos países em desenvolvimento, ampliando o êxodo rural e a pressão sobre áreas urbanas. O impacto da revolução verde sob ecossistemas foi a pressão sobre áreas novas para plantio e ampliação do uso de agroquímicos, principalmente, que exerce uma influência direta sobre determinados ciclos de vida e os nutrientes de que ela depende.

Existe uma lógica de funcionamento dos ecossistemas assentada em equilíbrio dinâmico. Quando nós buscamos ampliar a produção de alimentos, estamos alterando ecossistemas naturais, para fazer com que tenhamos mais produção de alimentos para uma única espécie, a humana. Interferimos assim, no equilíbrio dinâmico ecossistêmico.

O uso de agroquímicos e mudanças do uso da terra, com ampla produção agrícola, extermina espécies vegetais e animais e polui mananciais. A extinção de insetos polinizadores, como um dos exemplos mais visíveis, devido a esse processo, causa um grave risco: 70% dos alimentos do mundo dependem de insetos polinizadores, e não podemos fazer o trabalho deles, acreditem.

Do ponto de vista da saúde pública, a gravidade do uso abusivo destes químicos também vem sendo sistematicamente negligenciada, talvez por nos sentirmos longe desta realidade, por estamos concentrados em ambientes urbanos. Entretanto consumimos em grande quantidade, aqui no Brasil, alimentos com presença de químicos proibidos em países da União Europeia e Estados Unidos.

Uma pesquisa publicada pelo Laboratório de Geografia Agrária da USP em 2017, financiada por órgãos públicos de apoio à ciência e pesquisa, o que permite que determinados temas controversos para o mercado, como esse, sejam tratados de acordo com o interesse coletivo, nos apresenta um panorama bastante preocupante.

A autora da pesquisa, Dra. Larissa Mies Bombardi, lança o questionamento crítico para refletirmos: é a agricultura de larga escala que precisa de pacotes agroquímicos ou é a indústria agroquímica que precisa deste tipo de agricultura baseada em consumo intenso de químicos?

Na sua obra é possível encontrar uma extensa e detalhada pesquisa com mapas sobre intoxicações por agrodefensivos no Brasil. Entre os problemas retratados, que não atingem somente as áreas rurais, estão contaminações ambientais, intoxicações, tentativas de suicídio associada ao impacto dos produtos na saúde de produtores e moradores de regiões sujeitas a dispersão de contaminantes químicos, malformações congênitas e doenças crônicas. Obviamente isso tem um custo social altíssimo.

O que podemos fazer neste cenário? Buscar, dentro das possibilidades locais, dar suporte para pequenos agricultores urbanos e rurais que produzem alimentos frescos e com produção orgânica é uma das alternativas. Pelo Coletivo Socioambiental Bragança Mais você fica sabendo de ações como trocas de sementes, uso e produção de plantas alimentícias não convencionais entre outras possibilidades que ampliam a segurança alimentar em nível local.

Patricia Martinelli, Geógrafa, colaboradora do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais