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Agora e na hora de nossa morte

publicado em 31 de outubro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Muita coisa está mudando drástica e rapidamente em 2020. Algumas mudanças que vinham ocorrendo calmamente ao longo do tempo aceleraram, ganharam velocidade, irremediavelmente. Nesse processo, o avanço tecnológico é um dos motores que atuam no nosso modo de conviver, se comunicar e celebrar os momentos cruciais da vida.

A surpreendente velocidade da atual pandemia continua impactando nosso dia a dia e, também, nossa relação com a vida e a morte.

Há apenas alguns anos, o luto diante do passamento de um ente querido era mais longo, visível e compartilhado. Os velórios duravam cerca de 24 horas, reuniam muita gente, com destaque para parentes, amigos, colegas, irmãos de igreja e políticos, em campanha eleitoral ou não.

Às vezes, demoravam um pouco mais para que algum parente que estivesse distante pudesse chegar. Depois, vinha a missa de sétimo dia, a de mês e a de ano. Embora diminuísse a quantidade de pessoas que compareciam a essa sequência de missas, sempre reunia um grupo de pessoas próximas. Há 30 anos ou mais, o luto era coisa ainda mais séria.

Pessoas próximas do falecido vestiam-se de roupa preta, demoravam meses sem participar de festejos de amigos ou familiares. Pessoas mais idosas expressavam em suas vestes luto para o resto da vida. Nesse contexto, Finados era um dia especial, totalmente dedicado à lembrança e à homenagem aos falecidos da família. As ruas ao redor do cemitério ficavam totalmente lotadas. Muitas barracas de bebidas, comidas e velas se instalavam nas mesmas. O cemitério ficava absolutamente lotado. Nas capelas e diante dos túmulos, concentração, choro, histórias, oração, velas e flores.

Hoje, tanto o velório e o luto quanto finados são mais rápidos. Já não concentram pequenas multidões. Já era uma tendência que a notícia do falecimento ocorresse apenas via mídias sociais, assim como também as condolências. Já era tendência que o velório ocorresse apenas durante algumas poucas horas. A necessidade do isolamento social e os riscos de contágio pelo vírus devastador intensificaram essas tendências. Enterros que facilmente reuniriam mais de 100 pessoas, ocorrem agora na presença de 10 pessoas. O dia de Finados já não tem o burburinho que chegou até perto de nós. É crescente o número de pessoas, principalmente de jovens, que nunca estiveram em velório ou cemitério.

No entanto, o impacto da morte, como o da doença, continua trazendo muita dor a muita gente. A compreensão da vida está intimamente ligada à compreensão da morte. Já dizia o dramaturgo alemão Bertolt Brecht: ”Temam menos a morte e mais a vida insuficiente”. De fato, nossas famílias e nossa sociedade estão cheias de pessoas que levam uma vida vazia, fútil e inexpressiva. Nesse contexto, proponho a mim e a você uma pergunta: o que faria a partir deste instante se soubesse o dia e a hora de sua morte?

Pessoas que vivem intensamente a espiritualidade e a fé em Deus, Senhor da vida, creio que continuariam sem alterar significativamente seu cotidiano. Ao invés de se preocupar com a própria passagem para a nova dimensão, provavelmente se dedicariam a preparar pessoas próximas para que sofram menos os impactos da despedida.
Não poucas pessoas, se tivessem a sorte de saber dia e hora de sua morte, certamente correriam para arrumar as coisas. Fazer em pouco tempo o que não fizeram ao longo da vida.

Alguns correriam para ainda buscar soluções para problemas que estão deixando para a família: pendências financeiras, desavenças familiares, assinatura de documentos. Outros, provavelmente, agiriam para fazer correções no modo de viver. A exemplo do que ocorre depois de um acidente ou doença grave, levariam uma vida diferente a partir desse momento, menos individualista, mais espiritualizada, centrada em atenção às pessoas próximas.

Diz a canção de Túlio Dek: “O que se leva da vida é a vida que se leva. Se tu vacilar então já era”. O extremamente egoísta, que pensa apenas em si, custe o que custar, inclusive a felicidade daqueles que estão ao seu redor, está pronto para colher uma “vida” isolada.

Aquele que sempre se dedicou à convivência harmoniosa está pronto para uma vida fraterna, compartilhada, plena de amor. Quem sempre procurou a Deus e abriu espaço para o amor no seu dia-a-dia, antecipou aqui muitas das características da vida eterna, está preparado para estar lá, percebe que está pronto para ser acolhido na vida em plenitude.

Na perspectiva cristã, mesmo aquele que perdeu tempo ao longo da vida, concentrando-se em diversão, coisas vãs e, inclusive, negando a Deus com suas atitudes, ainda tem uma chance preciosa quando o fim se aproxima. É hora de buscar mais do que nunca a Deus, seu amor e o seu perdão, reconciliando-se com aqueles que estão ao seu redor. A respeito deste tema, o próprio Cristo orienta explicitamente: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir” (Mateus 25:13).