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A união faz a força e, também, moradias

publicado em 15 de fevereiro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Nesta semana, ocorreu a solenidade de entrega de 168 apartamentos do Residencial Bragança J, ao lado do conjunto habitacional Henedina Cortez, para os seus proprietários.

Ao evento compareceram autoridades municipais e estaduais como costuma ocorrer em todo tipo de inauguração. No entanto, a principal fala foi dos novos moradores, atuantes há anos sob coordenação da Associação Comunitária de Habitação e Grupo de Saúde Raios de Sol.

Passava diariamente diante da construção desde a terraplanagem inicial, levantamento das paredes e realização do acabamento. A obra chamava a atenção pela organização, tipos de equipamentos utilizados e, mais recentemente, pela visão de conjunto dos prédios. Desde que começou há cerca de um ano, não houve interrupção. Dava a impressão de obra bem planejada e desenvolvida com seriedade e competência.

Não estive na inauguração, mas acompanhei pela mídia local. As manifestações mais consistentes foram dos líderes das associações envolvidas e, principalmente, dos novos moradores. Estes se referiam a um sonho de décadas, a uma participação assídua durantes os últimos 7 ou 9 anos e à troca de um aluguel caro por uma prestação mensal acessível. O pesadelo da moradia precária, nesse dia, estava sendo substituído por apartamento novo, pronto para ser ocupado, espaço para uma convivência familiar feliz.

Essa forma participativa de solucionar o grave problema da moradia não é muito comum, mas apresenta um modelo alternativo a ser observado. O mérito está no fato dos interessados se associarem a outros interessados para construírem juntos uma solução e iniciarem um processo que pode durar anos até sua conclusão.

No caso do Bragança J, a associação negociou com os três últimos prefeitos municipais para conseguir doação do terreno. Depois foi necessário buscar verba e financiamento na esfera estadual e federal. Participação, persistência e ação contínua foram insumos sempre presentes, especialmente, nos momentos em que as barreiras pareciam intransponíveis.

O déficit habitacional do país continua elevado. A redução do crédito para financiamento de imóveis, o desemprego em alta a partir dos anos de crise e a queda na renda das famílias tornaram o sonho da casa própria ainda mais distante para milhares de brasileiros.

O déficit habitacional do País, que já era elevado, aumentou em mais de 220 mil imóveis entre 2015 e 2017, batendo recorde. “Chegamos ao recorde da série histórica de déficit habitacional. Hoje, ele ocorre, sobretudo, pela inadequação da moradia – famílias que dividem a mesma casa, moram em cortiços, favelas – e pelo peso excessivo que o aluguel passou a ter no orçamento das famílias nos últimos anos”, afirma Robson Gonçalves, da FGV. Em Bragança Paulista, esse déficit está na casa de 3 mil moradias.

Esse exemplo das 168 famílias bragantinas tem o poder de demonstrar que a união faz a força. Neste caso, a solução se deu no campo da moradia. Mas também produz efeitos no campo da saúde, da educação, da segurança, da geração de emprego e renda. Produz efeitos para situações que afligem a grupos pequenos de pessoas, como doenças raras ou outras necessidades especiais. Os efeitos também são notáveis diante de problemas mais estruturais.

Infelizmente, não temos o hábito de abraçar causas ligadas a necessidades de indivíduos, de grupos ou de parcelas significativas da população. Sempre que grupos organizados de cidadãos se movimentam, conseguem melhorias necessárias. Vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores e presidente da República, todos tendem a se movimentar quando percebem esse tipo de organização popular.

Não se trata de fazer oposição partidária. Trata-se de buscar o bem comum, de fazer as instituições funcionarem e, quando possível, colocar a mão na massa e desenvolver soluções. A mesma generosidade que se faz presente em momentos de catástrofes, pode ser mais duradoura e mais efetiva, gerando soluções estruturais e definitivas como é o caso de uma moradia própria de boa qualidade e financeiramente acessível.