Colunistas

A quem interessa denegrir a escola pública?

publicado em 24 de novembro de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Estudei em escola pública estadual e em escola particular. Até o ano passado tinha trabalhado apenas em escola particular de educação básica e superior. Desde fevereiro, mediante concurso público, assumi a direção de uma escola estadual de ensino fundamental.

Preconceitos existem de ambos os lados. Existem entre aqueles que atuam em escola particular em relação à escola pública. E vice-versa.

Não são poucas as pessoas que pensam, à distância, que a escola pública está sucateada. Confesso que várias foram as surpresas com que me defrontei ao ingressar tardiamente no serviço público. Difícil relacionar todas no âmbito de um artigo como este.

O primeiro valor encontra-se no fato de ser pública, aberta sem restrição a todos que desejam estudar e, inclusive, a crianças, adolescentes e jovens que não querem estudar. Encontram-se lá porque tem esse direito ou porque a legislação determina aos pais que assim seja, obrigatória e compulsoriamente. Dessa forma, a escola pública está intimamente ligada às características da comunidade ou bairro que atende.

Todas as carências da comunidade invadem a escola, a violência atuante no bairro também se aloja nos arredores e no interior da instituição. Os alunos, em geral, pouco conhecem da cidade em que vivem, em casa não tem a quem recorrer para um apoio na aprendizagem, tênues são os contatos com livros, revistas, cinema, museu e outros ativos culturais.

Esse espaço aberto para a convivência, encontros e desencontros, ensino e aprendizagem, alimentação básica na merenda, de imediato apresenta aos professores enormes desafios, para além da já exigente tarefa de ensinar e facilitar a aprendizagem. Cabe-lhes também disciplinar, orientar em vários outros aspectos da vida, motivar, oferecer algum carinho, demonstrar interesse e apoio. Não raramente, acompanhar dramas pessoais e familiares.

Mesmo trabalhando em escolas particulares, não imaginava que as escolas estaduais contam com vice-diretor, professor coordenador, professor mediador, gerente de organização escolar e vice-diretor da escola da família. Este para atender gente de toda idade em diversas atividades lúdicas, recreativas, esportivas e de variados aprendizados durante o final de semana, com o apoio de alunos universitários bolsistas.

A tônica nas escolas particulares é reduzir cargos, aumentando a carga de trabalho daqueles que continuam, para alcançar equilíbrio financeiro. Passei por vários processos de demissão em massa em diversas instituições particulares.

Também não sabia que orientações e determinações da Secretaria da Educação chegam à escola por meio da Diretoria de Ensino, que atua por meio de supervisores de ensino e professores coordenadores de núcleo. Várias são as reuniões, diversos são os treinamentos presenciais e à distância, os prazos de entrega estabelecidos e controlados. As orientações e as decisões são implementadas de forma matricial, da esquerda para a direita, de cima para baixo, chegam sempre à escola e, na maioria das vezes, aos alunos, destino final de todo processo educacional.
Os processos participativos são intensamente estimulados: conselho de escola, associação de pais e mestres, grupo gestor e grêmio estudantil.

Nunca consegui realizar planejamento com todos os professores durante mais de um dia em escolas particulares. Na estadual, são três dias no início e outros três no meio do ano. Pouca gente sabe que semanalmente todo professor participa de até 5 horas de orientação, estudo ou treinamento, sendo remunerado para isso em conformidade com sua carga horária.

Outro valor, na busca de melhorias qualitativas, está presente nas avaliações. São realizadas provas bimestrais no âmbito estadual, com resultados por turmas, sendo possível identificar habilidades que os alunos dominam bem e habilidades a serem desenvolvidas urgentemente, assim como comparações com outras escolas da diretoria de ensino e do próprio estado. Na próxima terça e quarta-feira, alunos de todo o estado estarão realizando o Saresp, semelhante ao Enem nacional, que no final permite um retrato de avanços e retrocessos de cada escola, das escolas da região e de todo o estado.

O presente e o futuro dos brasileiros e do próprio Brasil dependem de uma educação melhor. Não é verdade que tudo só piora. Convém observar e afirmar o que está acontecendo de relevante no âmbito educacional. Não é pouco o que está sendo realizado. Há, no entanto, um longo percurso a ser feito. Preparar bem novos professores, remunerá-los adequadamente e exigir profissionalismo destes são tarefas urgentes, inadiáveis.