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A força e o poder da palavra

publicado em 24 de outubro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Por ocasião do recente dia do professor, recebi uma mensagem cujo texto é de Paulo Freire, inspirador de muitos pedagogos, ao mesmo tempo em que incomodou muita gente com seus textos, dentre outros, Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia, Pedagogia da Esperança, Política e Educação.

Não foi unanimidade, tendo sido taxado de revolucionário de esquerda e comunista por grupos significativos de autoridades e críticos. Faleceu em 1997 aos 76 anos de idade. Seu pensamento e ações continuam exercendo influência na educação brasileira e em outros países.

Dizia o texto publicado pelo Instituto Paulo Freire no último 15 de outubro: “Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista que inventou esta aberração: a miséria na fartura”.

Aparecem nessa mensagem 4 binômios, cada um com palavras inter-relacionadas, mas antagônicas: decência e despudor; liberdade e autoritarismo; autoridade e licenciosidade; democracia e ditadura. Tudo isso continua vigente na atual educação familiar e escolar, também nas diversas esferas da política.

No discurso, somos todos favoráveis a uma educação familiar e escolar regrada pela decência, esperamos isso daqueles que empreendem e, sobretudo, daqueles que exercem cargos públicos. Infelizmente, nesses mesmos âmbitos, quando imaginamos progressos, novos episódios de corrupção se apresentam diante de nós. A decência é uma tarefa de todos que educam ou lideram. Requer muita repetição até que seja incorporada ao modo de ser dos indivíduos.

Professores encontram atualmente dificuldades quanto à autoridade e licenciosidade. Em geral, as crianças de hoje, desde muito cedo, são acostumadas ao desregramento, ao abuso da liberdade e à libertinagem. Não aceitam regras, revoltam-se contra limites, inclusive aqueles requeridos pela convivência harmoniosa nos lugares que frequentam. Parte dos pais estimula esse desregramento.

Ou acha bonito ou faz isso como forma de compensar limitações vividas por eles mesmos na infância ou adolescência, no contexto de famílias tradicionais, pais rigorosos ou falta de recursos financeiros. Numa sociedade altamente permissiva ao indivíduo como a nossa, não é fácil para o professor desenvolver sua autoridade. Com frequência é acusado de autoritarismo pelo aluno e pelos responsáveis deste. A autoridade, enquanto direito ou poder de mandar, de ordenar, de decidir, de se fazer obedecer, é parte integrante da convivência social, não aniquila o indivíduo, pelo contrário, possibilita a sua inserção.

A democracia continua sendo um desafio enorme para cidadãos das mais diversas partes do mundo atual. A tentação da ditadura de esquerda ou de direita sempre ressurge e se apresenta como alternativa para uma ordem verdadeira. Esta continua distante de nós.

Camadas inteiras da população continuam sem acesso à fartura presente em nossos mercados, grupos crescentes de pessoas são obrigados a deixar os próprios países em busca de lugares onde possam viver em liberdade, trabalhar e acessar bens necessários para uma vida digna. Decência, liberdade, autoridade e democracia continuam essenciais para uma sociedade em que caibam todos, inclusive aqueles que se encontram em periferias geográficas, econômicas ou sociais.