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A falha moral

publicado em 24 de setembro de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso

Há uma falha moral no discurso de vários presidenciáveis que consiste na negação das pessoas.

Todos se referem a números, dados estatísticos, propostas inalcançáveis que desconsideram as pessoas, tratadas e vistas como meros dados, índices, meras conjecturas. É como se as eleições e o governo estivessem acima daqueles que escolhem, bem ou mal, seus governantes, é como se os eleitores fossem os obstáculos para um bom governo.

Talvez a leitura dos dados estatísticos pareça mais precisa, menos questionável, mas ela esconde o fato que desconsiderar as relações sociais, econômicas e históricas de pessoas que nem sempre são ouvidas, conhecidas ou respeitadas.

A falha moral consiste no fato dos discursos serem fortes, empolados, mas carecerem de humanidade por serem vazios.

Uma das razões para tanto é a chamada modernização conservadora que, ironicamente, é a plataforma de governo da maioria dos candidatos. Segundo a lógica da modernização conservadora, deve ocorrer a modernização econômica, avanços industriais e enriquecimento das elites nacionais, com a exclusão e o empobrecimento de camadas significativas da população. É importante atentar para o fato que essa proposta é a que vivemos hoje e que será mantida por várias décadas, excluindo ainda mais parcelas significativas da população que empobrece a cada ano.

Além disso, são adotados discursos democráticos que, por sua vez, ocultam práticas autoritárias e arbitrárias que criam um quadro jurídico-burocrático que atende aos interesses das camadas mais poderosas e influentes da população, a pequena parcela beneficiada portal processo de modernização. A grande novidade, cruel e perigosa, é a adoção de discursos violentos e explícitos quanto a defesa da exclusão das minorias e da defesa dos crimes do Estado contra a vida, a quase legitimação das penas de morte, sumárias, imprecisas e injustas.

Os candidatos repetem o mesmo mantra – a liberalização do mercado e das relações trabalhistas. Mantra falso e excludente, responsável pela falência de inúmeros Estados, como o Chile, a Grécia e a Espanha. A explicação para isso é fácil, desde que sejamos honestos.

Tais práticas são defensáveis e plausíveis em Estados nos quais as desigualdades sociais diminutas e os arranjos normativos-institucionais são seguros e confiáveis, ou seja, em países que vivem o terror da desigualdade social e econômica, como o Brasil, a adoção de políticas similares é desastrosa, contribuindo, tão somente, para o aumento do abismo social.

Entretanto, surge a seguinte questão – quem se beneficia com isso?

E, como sempre, a resposta é óbvia e, por isso, nunca percebida e nem entendida.

O que vale é o sucesso da economia, restrita a poucos, a permanência de um Estado forte e autoritário tutela as ações sociais e políticas, reprimindo o que foge dos interesses do status quo, e a anulação das políticas emergentes ou não-institucionalizadas.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com