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A Causa

publicado em 21 de março de 2019 - Por Pedro Marcelo Galasso

Os casos de ataques ocorridos em Suzano, na Nova Zelândia e na Holanda, três com realidades diversas, com formações sociais e econômicas próprias, localizados em diferentes regiões do mundo e com motivações específicas, expressaram de forma clara e inconteste que os nossos vínculos sociais são frágeis e suscetíveis de atos cuja covardia e desumanidade assustam até mesmo aos mais incrédulos.
A leitura de tais ações tem várias interpretações distintas ou próximas, mas o que as une é a violência dos atos. Assassinatos planejados, propagandeados e aplaudidos em nome de algumas “causas” que são alimentadas pela mídia, pela ignorância, pela cegueira confortável do ódio, sob as mais estapafúrdias justificativas. Longe de menosprezar as questões individuais e pessoais de quem sofre com abusos diários e recorrentes. No entanto, a questão social é posta de lado, tratando os fenômenos sociais como meras ações individuais e desvinculadas das dinâmicas sociais que as sustenta impulsionam e motivam.
É importante afirmar que a Sociologia pode ser uma grande ferramenta para o entendimento de tais ações em regiões tão distintas, além de apontar caminhos a compreensão das realidades sociais, morais e econômicas que animaram e que consolidaram atos atrozes e que, infelizmente, estão longe de serem os últimos.
Max Weber, sociólogo alemão, discute, dentre outros temas, aquilo que nomeou de antagonismo de valores, uma questão central de toda e qualquer sociedade, em todo e qualquer período histórico.
Os fatos apontados acima, são expressões de uma multiplicidade valores ligados aos perigosos fins últimos que carregam todas as ações associadas a ele em questões que ganham o corpo de uma causa maior que, por isso, justificariam e legitimariam quaisquer ações que tendam ou que pretendam promover o que esses fins últimos exigem. Aqui, o espaço da reconciliação desaparece, se torna impraticável, desnecessário e odiado. É como se a possibilidade de extinção ou de questionamento do fim último fosse tratada como algo profano e impossível.
O fim último é um caminho unívoco no mundo das possibilidades que os universos social e histórico apresentam. E, nesse ponto, há a ruptura dos limites sociais e morais, há a ruptura que permite que toda e qualquer ação pareça lógica e verdadeira. De fato, a partir da ruptura a única questão que prevalece e que deve ser defendida é a razão, racional ou irracional, religiosa ou secular, do fim último já que a realidade de toda a existência se resume a ele.
É mais que urgente perceber que as questões sociais devem ser vistas e pensadas como questões sociais e históricas, contextualizadas com seus cenários após a análise criteriosa e mediata dos fatos mais absolutos e chocantes. Afinal, todo e qualquer ato de assassinato, de violência ferem a todos nós.
Podem, ainda, ser consideradas duas ideias complementares, nomeadas por Weber de paradoxo das consequências, a distinção entre ética de convicções e a ética de responsabilidade. Naquela, o seu adepto é dotado de uma intransigência que justifica um sentimento de obrigação acima de tudo, onde a realização do dever é o que se exige, não importando as consequências. É o tudo ou o nada, pois a realização do dever é absoluta, como o uso da violência para se acabar com a violência. Já na ética de responsabilidade, há uma leitura dos meios para se alcançar um determinado fim que exige a avaliação das consequências que podem ser resultado de uma ou de várias ações.
Fato concreto é que o quadro social precisa ser revisto, repensado e reconstruído na direção da tolerância, da preservação dos antagonismos, mas com canais mais humanos para a resolução de nossos conflitos. Um caminho longo, difícil, mas possível, urgente e necessário.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com