Colunistas

A boa samaritana e os curiosos

publicado em 23 de fevereiro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Este ano trouxe consigo várias catástrofes e acidentes, prato cheio para pessoas de todas as idades que gostam de cenas fortes e de divulgação instantânea. No acidente que vitimou fatalmente o jornalista Boechat, a atuação de uma moça chamou muito a atenção. Casada, mãe de três filhos, ela transitava pelo Rodoanel na garupa da moto do seu marido. Quando ela viu o helicóptero, ainda no alto, achando que ele estava pousando, comentou com ele: “Olha, é a primeira vez que vejo um helicóptero de perto”. Mas logo percebeu que se tratava de um acidente. Viu o choque da aeronave com o caminhão.

A moça curiosa imediatamente se transformou numa samaritana. Correu para a cabine da carreta, subiu na mureta, começou a conversar com o motorista para mantê-lo acordado, esforçou-se para retirar um pedaço de fuselagem que prendia o motorista. Seu esforço não era suficiente, precisou gritar com alguns curiosos que se aproximaram para observar a cena chocante, tirar fotos e fazer filmes, enviando-os imediatamente para colegas, amigos, parentes e meios de comunicação de todo lado.

Assim que conseguiu liberar o motorista, percebendo que ele estava bem, ela ainda foi na direção dos destroços do helicóptero na tentativa de salvar mais alguém. Alguns programas de rádio e TV descobriram que há alguns meses ela está muito doente, com um tumor na cabeça, encontrando dificuldades no tratamento, na medida em que depende de serviços públicos de saúde. Naquela rodovia muito movimentada, com muita gente por ali, ela foi uma verdadeira samaritana, conforme relato do Evangelho de Jesus Cristo.

Ouvi dizer depois, que imagens gravadas de alguns curiosos, que não prestaram ajuda, seriam submetidas a investigação e consequente punição. Tristemente esse é um comportamento muito comum nos dias atuais de tantos recursos acessíveis para comunicação instantânea. Diante de acidentes, graves ou não, é adequado não atrapalhar, ajudar sempre que possível, proteger vítimas até que chegue socorro competente e ter muito cuidado com a divulgação precipitada ou incompleta de notícias. Todo acidentado e, principalmente, corpos desfalecidos, merecem todo o respeito, consternação e proteção.

Recentemente, uma motorista cujo automóvel recebeu uma batida na traseira ficou espantada. Não apareceu ajuda. Enquanto conversava com o motorista do caminhão que causara o acidente, vários outros passaram e reclamaram por estarem ali parados. Julgaram que eles estavam atrapalhando o trânsito, enquanto se refaziam do susto e buscavam um acordo amigável para o acidente que acabara de ocorrer.

Andamos todos muito apressados, preocupados em demasia com nossas próprias coisas, não temos tempo para quem está necessitando de socorro ou apoio. É um comportamento negativo muito antigo: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote.

Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois o colocou sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele” (Evangelho de Lucas 10, 30-37).