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A arte de cuidar bem

publicado em 21 de setembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Quando vou a pronto socorro e a ambulatórios tenho o hábito de observar a atuação de atendentes, enfermeiros e médicos. Fico sempre muito preocupado quando vejo grande quantidade de pacientes em atendimento por um pequeno número de profissionais. Fico sempre muito alegre quando observo que algum médico, atendente ou enfermeiro atende bem, com muita atenção e simpatia.

Fico triste quando saltam aos olhos a desatenção, indiferença e, inclusive, grosseria de algum desses profissionais. Admiro sempre a sua capacidade cuidar simultaneamente de dezenas de pacientes, acertar no diagnóstico, não errar na medicação e cuidar de inúmeros detalhes. Quando as condições de trabalho são precárias, o que tristemente é muito comum,  tenho sempre a impressão de que correm riscos de se equivocar, manchando a própria reputação profissional e causando dor ainda maior a pacientes e familiares.

Estive há poucos dias num pronto socorro. Já durante a espera observei que algumas pessoas conhecidas, de uma mesma família, entravam e saiam, quase todas com lágrimas nos olhos. Chegou a minha vez de levar o paciente que acompanhava até o médico. Muito jovem, realizou a consulta sem pressa, muito atencioso, fez várias perguntas, examinou, o que hoje é absolutamente raro nesse tipo de atendimento. Encaminhou para a enfermaria, depois de pedir um contato com o médico especialista que acompanha o paciente. Surpreendeu-me. Encantou-me.

Enquanto o soro descia, procurei um ente da já mencionada família. Soube então que sua mãe estava desenganada, com perspectiva de morte eminente. E que o jovem médico orientou no sentido de que chamassem filhos e netos. Na medida em que chegavam, ele mesmo, o médico, explicava a cada um o que estava acontecendo e qual seria o provável desfecho da situação.

O bom atendimento não precisa chegar a esse extremo, embora desejável e altamente dignificante para aqueles que exercem a valorosa profissão de amenizar a dor e contribuir para a recuperação da saúde. Mas não atrasar o atendimento com conversas pelo corredor ou conversas no celular é indispensável. O tempo para quem está com saúde é um, transcorre suavemente. Para quem está com dor, fique parado, aumentando a agonia.

Chamar de longe, sair andando apressadamente na frente, receber na mesa sem um olhar para o paciente, não permitir que este explique durante um minuto o seu problema, não examinar minimamente, não explicar o que está acontecendo e qual será o encaminhamento  são hoje inadmissíveis.

Acho estranho que enfermeiros conversem com os colegas, em voz alta e boas risadas no ambiente de atendimento ou nos corredores das enfermarias e apartamentos, inclusive no meio da madrugada. Alguns nem conferem o andamento do soro, quase sempre o paciente ou o acompanhante, sobressaltados, precisam chamar mais de uma vez.

O atendimento humanizado e gentil não requer mais energia, tempo ou trabalho. Requer apenas atitudes de atenção, concentração, diálogo e gentileza. É um pequeno investimento para a satisfação pessoal de profissionais da saúde e de todas as outras áreas que lidam com o atendimento de clientes ou pacientes. E sempre encantam. É sempre gostoso contar uma boa história de bom atendimento. A imagem do profissional e da instituição sempre melhora muito com esse tipo de relato.