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BragançaPaulista21 Jan 2018


Cidade


Mais de 30% do tráfico envolvendo menores ocorre no CDHU
Sábado,  23 DEZ 2017
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Levantamento do Ministério Público oferece informações para embasar ações preventivas do governo municipal no local

 A Promotoria da Vara da Infância e Juventude de Bragança Paulista realizou um mapeamento do tráfico envolvendo adolescentes no município neste ano. O Conjunto Habitacional Saada Nader aparece como área de maior incidência de apreensão de menores envolvidos com o tráfico de drogas, com 34% do total, muito à frente dos bairros Cruzeiro (8%), Parque Brasil (7%), Henedina Cortez (6%), Lavapés (4%), que vêm em seguida na classificação.

O objetivo desse levantamento é fornecer subsídios para que a Administração Municipal tome providências quanto à oferta de equipamentos e atividades para desestimular os jovens a se envolverem com a criminalidade.

O levantamento foi feito com base em boletins de ocorrência de 1º de janeiro a 19 de dezembro (último dia de trabalho no Fórum antes do recesso). É o segundo realizado pela Promotoria. O primeiro ocorreu no ano passado e apontou Lavapés e Cruzeiro como líderes.


Promotor Ricardo Zampieri, pelo segundo ano consecutivo, teve a
iniciativa de realizar o estudo e oferecer subsídios à Prefeitura


“O tráfico está muito arraigado lá pela facilidade de fuga naquela estrutura, com blocos aglomerados. Eles conseguem subir rapidamente as escadas e se esconder nos apartamentos. Seria muito mais difícil a fuga se ficassem em locais abertos. Além disso, a área tem matas e eles contam com olheiros nas pontas das ruas”, explicam o promotor Ricardo Zampieri, que coordenou o estudo, e o delegado da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (DISE), Matheus de Campos Pinheiro.

O levantamento aponta também as ruas, e entre todas, 31% das ocorrências de tráfico foram apenas na Rua Vereador José Leitão Xavier, no CDHU. A reportagem do BJD esteve por três vezes esta semana no local e constatou que os traficantes agem em equipe.

A todo momento, rapazes com motocicletas rondam as ruas do bairro, de modo que naquela rua, a principal de acesso ao conjunto habitacional, sempre tem alguém de “sentinela”, que avisa os demais em caso de aproximação de uma viatura da polícia ou para coibir a presença de “estranhos”.


Delegado Matheus de Campos Pinheiro afirma que quando a polícia prende um traficante,  é hora de o Poder Público agir com atrações efetivas e permanentes para os jovens: “senão é enxugar gelo”

“Realmente é um local de difícil acesso. Muitas vezes precisamos chegar com viaturas descaracterizadas (sem identificação visual da Polícia Civil). Mas se tem estatística é porque estamos atuando na repressão. Não existe estatística de tráfico sem prisão, porque ninguém faz BO de tráfico.

O BO só é feito depois da prisão ou da apreensão. Só aumenta a incidência se aumenta o combate. Tenho de destacar também a Polícia Militar e a Guarda [Civil Municipal]. Se chegar com viaturas caracterizadas é bem difícil o flagrante e mesmo assim eles também têm conseguido realizar prisões e apreensões. Trabalhamos pelo bem comum.

Só que quando prendemos alguns elementos, principalmente os que são mais difíceis de serem substituídos na função do tráfico, é o momento de o Poder Público entrar com ações para entreter os jovens naquela localidade. Caso contrário, chega outro traficante no lugar para cooptar esses adolescentes e ficamos enxugando gelo”, comenta o delegado, que também teve acesso ao estudo e mantém conversas com o promotor.

Mas a maioria dos adolescentes envolvidos com o tráfico não mora no CDHU. A estatística de relação moradia-incidência mostra que no local residem 9%. O bairro onde mora a maioria desses jovens é o Cruzeiro (13%). O Jardim Águas Claras é o terceiro, com 8%.

Ricardo Zampieiri informou que integrantes do Papo Sério Jovem, grupo que debate políticas públicas voltadas aos adolescentes, está realizando uma pesquisa junto a estudantes de escolas públicas perguntando a eles o que esperam do Poder Público quanto a equipamentos municipais, relacionados principalmente a atividades esportivas e culturais, “para apontar quais são as expectativas e os desejos desses jovens, e implantar o que interesse à maioria, pois se não for interessante não adianta que o jovem não vai”.

“Fizemos uma reunião em 19 de setembro com representantes da Administração Municipal e avençamos um prazo de 120 dias (até o final de março) para ser apresentado um plano de ações, principalmente no Cruzeiro, no CDHU e no Jardim Águas Claras. Enquanto o município está elaborando esta proposta, o Papo Sério também está pesquisando com adolescentes o que eles desejam, para fundir essas ideias e implementar equipamentos e atividades eficientes”, acrescenta o promotor.