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Cidade de Bragança


Um Pouco da Nossa História: Alguns poetas do passado da Cidade Poesia
Por José Carlos Chiarion   Terça-Feira,  17 SET 2013
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 Nossa terra, no passado, teve a felicidade de possuir entre seus moradores figuras que souberam cantar maravilhosamente o perfeito, o belo e o superior.

Então nos veio a ideia de trazer ao conhecimento de nossos leitores, pequenos dados biográficos de alguns dos poetas que existiram em nossa cidade; vários deles aqui nascidos e outros que para aqui vieram com suas famílias ou aqui as constituíram.

A finalidade deste trabalho não é de apenas transcrever as poesias destas figuras, mas sim fazer conhecer um pouco de suas personalidades e para isso vamos nos valer em parte, de escritos de autoria de Daniel Deusdedit Peluso, o “Tristão dos Valles” como era conhecido, que muito colaborou na Imprensa desta terra.

Essas poesias, desconhecidas da maioria de nossos leitores, escritas em épocas que já se vão longe, serão relembradas aqui como homenagem aos poetas, muitos deles desconhecidos pela nossa gente e como estímulo aos poetas de hoje.

Começaremos com uma pessoa que teve em elevado grau o talento da assimilação. Seu nome: Fernando de Assis Valle, porém gostava de ser chamado simplesmente Fernando Valle.

Fernando Valle era o poeta da tristeza e da nostalgia. Tinha, pela saudade, verdadeiro afeto, mostrando ser ela a sua própria vida.

Possuidor de uma alma sentimentalista por excelência, Fernando Valle refletia com facilidade o sofrimento alheio, produzindo versos cheios de emoção e sentimento, como veremos a seguir.

Saudade, tu és lágrima sentida,
Saudade, tu és o amargor de meu delírio,
Saudade, espelho fiel de minha vida,
Saudade, fina essência do martírio.

O próprio poeta confessa: “Saudade, espelho fiel de minha vida”. Ele sente a melodia nostálgica em seu coração. Ele quer chorar a sua angustia, então, se joga nos braços de sua musa e ela envolve em suaves melodias a perturbação do poeta.

Vejamos o que dizia seu delicado coração, às necessidades alheias:

Vós que viveis aqui, nesta Bragança,
Neste torrão de vida intensa cheio,
Onde tudo é sorriso, amor e anseio,
Inundado por mares da bonança.

Observas que, bem junto ao vosso meio,
Há alguém que vos espreita e não se cansa,
De esmola vos pedir e não descansa,
Enquanto a humana dor viva em seu seio.

Fernando Valle era bragantino. Nasceu poeta e para maior gloria de sua terra morreu poeta. A sua poesia possuía a mística do lirismo melancólico e sentimental.

Publicou o seu primeiro livro de poesias “Os meus versos de Saudade” aos 60 anos de idade, no ano de 1939. Ao contrário do que se poderia supor pelo título desse livro, há nele entusiasmo e vibração de um jovem poeta.

Fernando Valle era possuidor de grande religiosidade e em sua vida não se deixou arrastar pela onda maléfica que levou muitos poetas ao ateísmo. Conservou sempre a sua inteligência aberta à sua crença religiosa, confirmada no seguinte poema:

Junto a Jerusalém, no píncaro de um monte,
Ergue-se a grande cruz.
Nela um corpo estendido.
Cravo nos pés, nas mãos, a palidez na fronte,
Cristo arranca, em surdina, abafado gemido!

A luz clara do sol se ofusca no horizonte,
O belo azul do céu se torna enegrecido,
Num soturno rumor, a terra, o mar, a fonte,
Soltam grito de dor, profundo, dolorido!

Lírios de Zabulon, rosas de Jericó,
Perdendo o seu frescor, murcham sem ar, sem luz,
Morre o filho de Deus, abandonado e só!

A alma vai para o céu num clarão que reluz!
Se a humanidade ingrata O maltrata sem dó,
Ele, para salvá-la, expirou numa cruz!...

O “poeta da saudade”, como era alcunhado Fernando de Assis Valle, faleceu em 22 de agosto de 1954, cercado do carinho dos seus familiares e do grande número de amigos que aqui deixou.

Eis aqui, num reflexo passageiro, a figura querida e respeitável do “poeta da saudade”, o poeta do sentimento, o poeta querido de Bragança Paulista.

(continua)

*José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador, colunista do Bragança-Jornal Diário, participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.