Cidade de Bragança


Santa Casa de Misericórdia: da fundação aos nossos dias - Parte II
Por José Carlos Chiarion   Sábado,  31 AGO 2013

 A pedra fundamental

Na tarde do dia 13 de setembro de 1896, segundo registros da época, com o calor suavizado por uma branda viração vinda do sul, às 17h00 saiu do prédio onde se localizava o “Grêmio Comercial”, que na época era uma sociedade de grande projeção social no meio associativo, o préstito acompanhando a “pedra base” conduzida em um carrinho elegantemente ornamentado, puxado por jovens bragantinos.

À frente, o Juiz de Direito da Comarca Dr. José Manoel Vilaça, o Promotor Público Dr. João Ferreira Machado, advogados, funcionários do Fórum, o Comandante da Guarda Nacional Coronel Teophilo Francisco da Silva Leme, diversos oficiais, bem como os médicos Doutores Almeida e José Hermenegildo Pereira Guimarães, o representante da Câmara Municipal vereador José Vieira da Silva e o poder policial representado pelos senhores Cassiano Pereira de Araújo e Serafim de Oliveira.


9 de julho de 2013: homenagem aos 71 anos da
morte de Santa Paulina no prédio da Santa Casa


A Irmandade da Santa Casa estava representada por seu Provedor Nicolau Felizardo Barra, pelo Tesoureiro Comendador Payão, pelo Procurador Joaquim de Souza Dias Guimarães e vários outros Irmãos. Com seus estandartes faziam-se presentes: o “Grêmio Comercial”, o “Club Republicano”, o “Club Artístico Recreativo”, a Loja Maçônica “Amor da Pátria”, o “Club dos Operários” e a “Sociedade de Mutuo Socorro”.

A procissão cívica saindo do Largo Municipal, desceu as Ruas Direita e Lavapés, chegando ao local às 17h30.

Depois da benção pelo vigário Francisco Claro de Assis, deu-se o lançamento da pedra fundamental ao espocar dos foguetes e aos sons da Banda Musical “XV de Outubro”.

A seguir o senhor Adolpho Correa de Barros fez o discurso oficial falando em nome da “Irmandade de Nosso Senhor dos Passos”, mantenedora da Santa Casa, da qual era zeloso secretário.

Falaram ainda em eloqüentes discursos o Capitão Rafael de Lima, o Dr. Afonso Brandão, Godinho Junior, o operário João Paulino do Amaral (João de Nhá Emilia) e o Dr. Juiz de Direito. Ao final, agradecendo a presença de todos os que prestigiaram aquele ato, novamente falou o secretário da Irmandade, Adolpho Correa de Barros.

Em uma cova foi colocada uma caixa fechada contendo a ata constatando o fato assinada pelos membros da Mesa Administrativa da Santa Casa de Misericórdia, pelos Irmãos ali presentes e por pessoas gradas, bem como foram colocados jornais e moedas da época no referido recipiente.

Assim foi dado inicio à construção deste modelar estabelecimento hospitalar que hoje serve a toda uma região.

Em 1º de maio de 1900, às 10 horas da manhã foi inaugurado solenemente o sobrado de dois andares onde passou a funcionar o Hospital.

Em 21 de abril de 1901 foi benzida a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos (ainda existente) e colocada na Capela então construída no lugar do antigo Oratório que havia sido montado com donativos das senhoras Vitória Keller e Carolina Augusta de Moraes e do senhor Francisco Alves Cardoso.

Com o desenvolvimento das atividades hospitalares, tornou-se um sério problema o seu funcionamento, quase sempre confiado a pessoas leigas no assunto, porém imbuídas de boa vontade e dedicação ao tratamento dos doentes que ali aportavam.

A Mesa Administrativa resolveu então apelar para a contratação de Irmãs de Caridade, o que seria a melhor solução, levando-se em conta que o tratamento aos doentes fazia parte da missão de algumas congregações religiosas.

Durante alguns anos várias propostas foram feitas às congregações existentes no país e inclusive uma delas foi efetuada a uma congregação religiosa da Bélgica, as quais, por motivos vários, foram recusadas.

Finalmente, no mês de março de 1906, as “Irmãzinhas da Imaculada Conceição “ assumiram a direção interna do hospital; uma vez que fora aceita a proposta feita à Superiora Geral, Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Vieram cinco Irmãs: Francisca - Superiora, Isabel e Juliana – Enfermeiras, Margarida – cozinheira e Anna – servente, as quais se dedicaram de corpo e alma à caridosa missão que lhes foi confiada.

Daí para frente a nossa Santa Casa de Misericórdia foi se desenvolvendo graças às contribuições em dinheiro e espécies que recebia de fazendeiros, sitiantes, comerciantes, industriais, capitalistas, de bragantinos que deixaram sua cidade mas que tinham verdadeiro amor pela terra que lhes serviu de berço e demais pessoas que sempre procuraram auxiliar essa magnífica obra de beneficência.

Quando inaugurado o prédio, tinha o nosocômio capacidade para 50 enfermos. Atualmente aquele prédio faz parte de um enorme conjunto arquitetônico construído graças ao trabalho de muitos anos dos membros da Irmandade do Senhor dos Passos, com a cooperação dos poderes públicos e a enorme contribuição de benfeitores, diretores e da população bragantina e com o inestimável auxilio do atual Provedor Enir Hernandes Acedo e seus companheiros de diretoria.

Graças à todos aqueles que colaboraram com essa obra, ao trabalho dos diretores que a administraram durante todos esses longos anos e de seus atuais dirigentes, nossa terra possui um dos mais modernos estabelecimentos hospitalares de todo o nosso Estado, quiçá de nosso país.

E como não poderia ser diferente, a Irmandade do Senhor. Bom Jesus dos Passos é um marco importante para nossa história pessoal e de nossa Bragança Paulista. E por ter feito parte da sua história, como membro de sua diretoria entre os anos de 1965 a 1991, tendo ali ocupado os cargos de Secretário, Tesoureiro e Mordomo, e recebido o honroso titulo de Irmão Benemérito da referida Instituição, não poderia deixar de trazer ao conhecimento de nossos leitores um pouco da linda jornada deste hospital, a qual se entrelaça com a história de nossa cidade.

* José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação de Escritores (ASES). Foi vereador, colunista do Bragança-Jornal, participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.