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BragançaPaulista21 Fev 2018


Colunistas


Glória ilusória
Sábado,  27 JAN 2018
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 Em 1994 nos EUA, Brian Kelly estava no hospital à beira da morte. Então ele passou à família seu desejo para o funeral. E, sendo informado desse desejo, o patrão de Brian realizou tal desejo. Brian trabalhara a vida toda numa fábrica de fogos de artificio. O desejo funerário dele foi realizado quando o patrão de Brian participou de uma convenção das indústrias de fogos de artifício, em agosto de 1994, na cidade de Pittsburgh, EUA.

Lá houve uma cerimônia especial na qual foi disparado um rojão de 35 cm. O rojão subiu deixando um rastro de dois cometas prateados iluminando a escura noite. Em seguida ele explodiu enchendo o céu de estrelas verdes e vermelhas. Dentro desse rojão, entre as estrelas, estavam as cinzas do corpo cremado de Brian Kelly. O desejo dele foi realizado.

O ser humano é um ávido perseguidor da glória. Alguns insistem nisso até mesmo no fechar das cortinas de suas vidas. Mas esse perseguir a glória, em vida e morte, acaba sempre em gloriosas cinzas. As realizações humanas, por mais espetaculares que possam ser, são sempre como o explodir de um rojão no céu da noite. Ele é impressionante, mas extremamente fugaz. Assim é a vaidade intelectual, o poderio financeiro, o status profissional, o orgulho pessoal e o exibicionismo artístico e atlético.

Não obstante essa verdade ser evidente, o ser humano teima insistentemente em querer encontrar a glória para si. A razão disso é que glória denota transcendência. Isto é, ao alcançar algum destaque ou exaltação, o ser humano tenha a impressão que galgou um patamar acima da mortalidade humana. Porém, essa busca precisa encontrar a lucidez. O ser humano precisa entender que nele não há tal glória e nem nas suas realizações. O anseio de transcender a finitude e mortalidade é uma impossibilidade. Glória de verdade pertence e é encontrada apenas em outro ser bem distinto do humano.

O rei francês Luís XIV construiu um reinado glorioso, muito bem simbolizado pelo seu grandioso palácio de Versalhes. Dizem que Luis XIV intitulou a si mesmo de “O Grande”. E muitos atribuem a ele a frase “eu sou o estado”. No funeral dele, em 1715 na catedral de Saint Denis, tudo ficou na penumbra. Apenas uma vela pairava sobre o caixão dele, ilustrando e afirmando que Luis XIV era glorioso sobre todos e tudo. O bispo Massilon, ao iniciar a missa funeral, apagou num sopro a vela e bradou: “Somente Deus é grande”.

Essa lucidez do brado do bispo é muito necessária. Ela aponta para o ser humano em quem se encontra a verdadeira transcendência, ou seja, quem é verdadeiramente glorioso. É preciso apagar as velas humanas. É preciso reconhecer que a exaltada e inextinguível luz pertence a Deus. E nele, então, é que está a resposta para anseio humano de vencer sua fugacidade e imanência.

Já no século VI ac, o profeta Jeremias advertia: “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio em sua sabedoria, nem o forte na sua força e nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto - em compreender-me e conhecer-me, pois Eu Sou o Senhor...” (Bíblia, Jeremias 9:23-24) Somente Deus é Senhor absoluto. Ele tem atributos que sustentam e correspondem a natureza da glória.

Além de a verdadeira glória ser impossível para o ser humano, glória é impropria para a natureza humana. Glória humana faz mal ao ser humano e aos seus relacionamentos. Glória humana ilude e distorce as perspectivas dentro do universo dos humanos, no qual todos são igualmente finitos e imanentes. A glória humana produz um viver artificial, desproporcional e desacertado. O ser humano não foi feito para a glória. Ele foi feito para glorificar aquele que é transcendentemente glorioso.

Essa insensata perseguição de glória humana é insistente e precisa ser tenazmente resistida e vencida. E isso acontece quando se passa viver para a glória de Deus. Não é preciso muito para o ser humano ficar tolo e desconectado da realidade de quem ele é. Somente a visão de Deus em sua glória coloca tudo na devida perspectiva, trazendo a sensatez ao coração humano.

Quando um comandante do império romano realizava uma conquista militar de certa grandeza, ele era honrado com um desfile em Roma diante da aclamação popular. O comandante vitorioso ia em pé numa biga romana puxada por um cavalo, mas, atrás dele se postava um escravo sussurrando ininterruptamente: “Olha para trás, e se lembre que você é apenas um homem. Lembre-se que você é mortal.”

Esse pensamento precisa permanecer na consciência. E a isso é preciso acrescentar as palavras de Jeremias: “...quem se gloriar, glorie-se nisto - em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor...” Em Cristo há o perdão e mediação para se encontrar a uma vida sensatamente vivida para a glória de Deus.