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BragançaPaulista18 Fev 2018


Colunistas


Incógnita do novo ano
Sábado,  20 JAN 2018
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 Quando o imperador Julio Cesar introduziu o novo calendário anual em 45 ac, ele dedicou o primeiro mês ao deus “Jano,” daí o nome “Janeiro” no atual calendário do ocidente. Jano era o deus da saída e da entrada, do término e do começo, do passado e do futuro. Por isso ele tinha duas faces, uma olhando para trás e a outra para frente.

Realmente janeiro é um momento tipo “Jano”. Ao virar mais um ano, o ser humano se torna parecido com o deus Jano. Se de um lado se olha o que vai e não volta, do outro lado busca-se ansiosamente olhar o que vem. Porém, ao procurar olhar o que vem, olha-se nada. Não se pode enxergar nada. O novo ano pertence ao futuro. É a categoria do que é desconhecido para o ser humano. Todos os esforços em nada podem ajudar.

O ser humano sofre da síndrome de Jano. Ele quer ver seu futuro. Ele quer ser o deus de seu futuro. Por isso todas as formas de adivinhações, ainda que sempre enganosas, fazem sucesso. Elas dão uma sensação de controle do futuro, inclusive induzindo muitas vezes a falsa impressão que controlou e deu certo. O ser humano resiste ao fato que o futuro está fora do alcance do seu olhar. O fato é que o novo ano é uma incógnita para a perspectiva humana.

O tempo e o ser humano são duas criações de Deus. A existência humana acontece no tempo e o tempo revela a finitude humana. A verdade do tempo aponta para a necessidade de Deus na existência humana. O ser humano foi criado para viver para e com Deus, ou seja, em dependência absoluta. O desejo de controlar o futuro revela o desencontro humano com a sua realidade e com Deus.

Planejar é responsabilidade humana, porém, confundir planejamento com controle é equivoco grave. O novo ano é uma categoria desconhecida que deve ser recebido em total dependência de Deus. Somente assim o ser humano encontra descanso diante da ansiedade do futuro.

A única certeza do ser humano é que Deus tem o controle de seu futuro. Qualquer outra certeza é ilusória, produzida por uma tola arrogância. Somente a humilde dependência de Deus dá sentido à existência dentro da dimensão do tempo, então, diante do novo ano. Essa dependência liberta da insensatez da arrogância e do absurdo da incerteza do futuro. E liberta da alegre tolice do pensamento positivo – “pense afirmativamente e tudo vai dar certo”. O novo ano deve ser recebido com humilde gratidão e total dependência de Deus. O resto é loucura.

Tiago, o escritor bíblico, adverte aqueles que arrogantemente dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócio e ganharemos dinheiro” (Tg 4:13). Depois Tiago acrescenta: “Vocês não sabem o que lhes acontecerá amanhã!”

E então ele aponta para a realidade: “Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa”. Tiago conclui com a postura sábia, ensinando que deveríamos dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo” (Tg 4:15).

O desassossego do ser humano com o futuro é na verdade mais uma vertente da luta humana com Deus. É fruto do desejo humano de querer ser autônomo diante de Deus, o que muitas vezes é feito de modo sutil. O ser humano quer ser um deus, um Jano. Por essas e outras razões é que Cristo sofreu a pena humana na cruz.

Toda a arrogância rebelde e afrontadora diante da soberania de Deus, ou seja, o pecado, inclusive quanto à dependência do futuro, Cristo tomou sobre ele. Nele há perdão e reconciliação com Deus, e então paz com a ordem de nossa realidade dentro do tempo. Fomos criados por Ele e para Ele. Fugir desse habitat de dependência é desestruturar a existência. O ano novo é oportunidade de encontrar o descanso na dependência em Deus.