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BragançaPaulista18 Fev 2018


Colunistas


Dose certa
Sábado,  09 DEZ 2017
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 Nasci e vivi até os 11 anos de idade num alambique. Toda tarde chegava alguém para solicitar uma “dose”. Não era de aguardente. Meu avô era uma espécie de curandeiro geral na região. Curava cobreiro e susto com um tipo de benção. Seu ponto forte, no entanto, estava na homeopatia. Alguém trazia o relato da doença de criança, adulto ou idoso.

Eu ou algum dos meus irmãos enchia o vidrinho de água que o parente do doente já trazia. Meu avô pingava as gotas na dose certa para a enfermidade relatada. Nunca cobrava. Dias depois chegava o relato de que o doente ficara bom, às vezes, vinha um presentinho.

O segredo estava no relato bem feito, no remédio homeopático adequado e na dose certa. Menos gotas não faziam efeito, gotas demais poderiam prejudicar o doente ao invés de curar. É a dosagem que distingue em muitos casos o remédio do veneno.

Chamou demais minha atenção notícias recentes de que, numa faculdade de Medicina de Minas, vários alunos tentaram o suicídio, dos quais dois faleceram. Além disso, existem vários relatos de alunos que passaram a sofrer de depressão e de outras doenças psíquicas.

A associação de alunos indica que na raiz desses episódios pode estar o excesso de cobrança quanto ao desempenho discente. Alguns alunos, somando aulas, estudos e trabalhos escolares, chegam a uma carga de mais de 16 horas diárias, dedicando poucas horas ao sono. Sofrem ainda a pressão dos riscos acadêmicos e financeiros de não obterem aprovação nas avaliações.

A necessidade de estudar muito para entrar numa boa faculdade e, depois, para manter-se nela é muito comum. Depois de anos de dedicação na educação fundamental e no ensino médio, às vezes acrescido de um bom tempo em cursinhos, para parentes e amigos parece que tudo está resolvido. Enquanto isso, o calouro está enfrentando as dificuldades típicas da nova etapa, tais como a vida com menos conforto do que na casa dos pais e, não raramente, o desencanto com o curso escolhido. Tudo isso pesa muito.

Nem todo jovem abre o jogo, é comum carregar o peso sozinho. Para não contrariar a expectativa dos pais, para não passar vergonha diante de parentes e colegas, muitas vezes faz esforço sobre-humano para continuar. Como não tem satisfação pessoal naquilo que está fazendo, tudo se torna mais pesado, às vezes, insuportável.

É importante que os pais, irmãos e outros parentes estejam atentos a possíveis sinais de estresse. Não há problema em voltar atrás, dar um tempo, fazer novas escolhas. Bom investimento é aquele que faz a pessoa feliz, apta a desenvolver projetos para a vida toda.

Alguns educadores, inclusive de colégios exigentes e de cursinhos que almejam 100% de aprovação, já perceberam a necessidade de dosar o ritmo do ensino e da aprendizagem. Por ocasião das provas do ENEM e dos principais vestibulares, é hoje frequente as orientações de que é necessário diminuir o ritmo, relaxar, alimentar-se bem, inclusive para fazer boas provas.

É bom desejar cursos de ponta, ter foco, construir com dedicação a profissão que se deseja. Mas é necessário ter presente que se trata de um projeto de longa duração. As energias devem ser dosadas no início, meio e fim.

Num simples campeonato de futebol, como o Brasileirão, o time que não sabe dosar as energias fica no meio do caminho. Isso também vale para outros projetos ao longo da vida, tais como crescimento profissional, poupança financeira ou empreendedorismo.

Nada justifica colocar a saúde em risco, afastar-se da convivência com parentes e amigos, não ter tempo para si próprio, não acompanhar o crescimento dos próprios filhos. Conheço algumas pessoas que trabalharam como besta durante anos, adoeceram gravemente, para então descobrirem o sabor de pequenas coisas cotidianas e a alegria de viver.