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BragançaPaulista17 Jan 2018


Colunistas


Diversidade: uma ferramenta da sustentabilidade
Terça-Feira,  05 DEZ 2017
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 Diversidade é a qualidade do que possui multiplicidade, do que é diverso, variado. Sustentabilidade não caminha de modo adequado sem contemplarmos nas nossas ações a diversidade como fundamento. Vamos entender o porquê disto?

A questão central é que se observou que há uma relação muito forte entre sistemas resilientes, ou seja, que possuem capacidade de se recompor facilmente ou se adaptar às mudanças ou eventos inesperados, quando esses sistemas apresentam maior diversidade interna.

Encontramos essa abordagem em diferentes escalas, desde pesquisas tratando de indivíduos, que buscam, por exemplo, associar a maior diversidade da flora intestinal humana às melhores condições de saúde, passando para sistemas diversos da organização da sociedade numa escala muito mais ampla, tais como cultura, ambiente ou a economia. Deste modo, podemos considerar em linhas gerais, que todos esses sistemas, quanto mais diversos, tendem a recuperar-se mais facilmente dos mais variados tipos de perturbações ou “impactos” que possam vir a sofrer.

Tomemos como exemplo um município como um sistema formado por seus setores econômicos (agricultura, indústria, serviços), recursos naturais e população. Imagine que esse município aposta toda sua economia numa única atividade de um setor, e que todas as pessoas dependem direta ou indiretamente disto para sobreviver, ou seja, o município possui uma baixa diversidade econômica de atividades.

Qualquer crise, qualquer alteração ambiental que comprometa o desenvolvimento desta atividade, tem o potencial de desestruturar irremediavelmente a economia de todo o município. O mesmo ocorre com a redução da diversidade no desaparecimento ou pressões sobre diferentes ambientes, com a padronização alimentar em todo o mundo, entre tantas outras questões.

Com a globalização econômica uma parte da economia se organiza e cada vez mais de um modo único e integrado, ligada a negociações amplas que envolvem complexos interesses e relações internacionais, o que, de certo modo, reduz a diversidade das formas de se pensar e fazer a economia em escalas atentas às necessidades locais das populações. Assim, preservação de recursos naturais, bens culturais, produção de alimentos e alguns bens essenciais, muitas vezes, ficam vinculados a uma lógica financeira de produção e especulação, que não atende necessariamente às necessidades das populações.

Tendo isso em vista, há uma busca cada vez maior por ampliar a diversidade econômica e alternativas de desenvolvimento local, com objetivo de ampliar também a sustentabilidade social, econômica e ecológica em escala local.

Assim, movimentos como agricultura urbana, trocas de sementes crioulas, ampliação de conhecimento em Plantas alimentícias não convencionais (Pancs), divulgação e ampliação de conhecimentos associados à educação ambiental, entre eles consumo sustentável, como propõe a iniciativa da Feira de Trocas promovida anualmente pelo Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais, que procuram incentivar o olhar sobre novas possibilidades de relações locais. Essa visão está fortemente assentada numa lógica de cooperação, solidariedade e de diversidade local.

Para além de uma visão copiada, romântica ou elitista dos “paraísos” europeus que já adotam essas atividades e práticas, podemos todos fortalecermos esse olhar da diversidade, em cada bairro, em cada comunidade, encorajando pequenos produtores, comércios, pequenas redes de serviços, valorizando as manifestações culturais, ampliando o cuidado com os recursos naturais de onde vivemos.

A diversidade, em todas as esferas, permite uma cidade extremamente viva e dinâmica, e consecutivamente mais sustentável e preparada para crises e mudanças.

PATRICIA MARTINELLI, GEÓGRAFA, COLABORADORA DO COLETIVO SOCIOAMBIENTAL E ASSOCIAÇÃO BRAGANÇA MAIS