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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Cuidado de idosos
Sábado,  25 NOV 2017
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 Encontrei um amigo num supermercado. Em poucos minutos contou-me uma história comovente. Disse-me que estava ali fazendo umas comprinhas para seu pai idoso. Suas duas irmãs moram longe, cabe-lhe então, diariamente, cuidar de seu pai. Contou-me mais. Sua esposa, filhas, genros e netos estavam na praia.

Ele ficou para cuidar do pai, como sempre faz. Estava orgulhoso de poder dar essa atenção especial e carinhosa ao velho pai. Estava com saudades do pessoal que estava curtindo a praia. Pude imaginar essa saudade. Não sabia desse cuidado integral ao pai, mas com frequência lhe vejo na companhia harmoniosa de esposa, filhas e netos.

A família brasileira passou por profundas mudanças nas cinco últimas décadas. Estamos caminhando aqui para o que já é uma realidade antiga em países desenvolvidos. O brasileiro que tem mais de 50 anos de idade conviveu com um padrão familiar de 5 a 7 filhos por casal, todos vivendo mais ou menos perto uns dos outros.

Nessa situação, cuidar dos pais era uma tarefa melhor repartida. Todos davam uma mãozinha em algum momento do dia, faziam aquilo que podiam e os idosos estavam quase sempre amparados.

Nas últimas décadas, várias coisas mudaram no que diz respeito à vida individual e à família. A população brasileira era predominantemente infantil e jovem. Hoje é crescente e vai tornando-se maior a presença de idosos na composição da população brasileira. O equilíbrio da previdência social é uma grande preocupação. Até 1980, por exemplo, a maioria de jovens e adultos fazia fundos suficientes para a aposentadoria dos idosos.

Na medida em que cresce o número destes e diminui o número daqueles, o equilíbrio fica cada vez mais precário. Outros fatores interferem nessa equação. Por exemplo, o fato das pessoas estarem vivendo mais, em função de avanços da medicina e de outros ramos da ciência. Também o crescente desemprego, em função da recente crise, afeta fortemente esse equilíbrio.

Dentro desse contexto, cada família tem suas particularidades. Ocorre, no entanto, alguns fatores comuns. Por exemplo, dois ou três filhos, um ou dois netos para cuidar dos idosos da família. Destes, sempre tem alguém que mora muito longe.

Tem também aqueles que, mesmo estando perto, não conseguem cuidar de pessoas com algum tipo de fragilidade, limitação ou doença. Muitos casais de segunda ou terceira união têm vários idosos a serem cuidados.

Observa-se o crescente mercado de empresas e de profissionais voltados para o cuidado de idosos e de enfermos. Resolve em parte. Mas mantém ou acentua o problema financeiro dessa atenção e não substitui, nem minimamente, a necessidade do afeto, da atenção e do carinho dos familiares.

Há um ditado antigo que diz: “um pai ou uma mãe carrega dez filhos, dez filhos não carregam um pai”. A verdade implícita nesse ditado ampliou-se nos últimos anos. A educação familiar é cada vez mais individualista, faz todas as vontades de crianças e jovens, não costuma cobrar nem aquilo que é minimamente necessário.

Quem foi educado para o individualismo tem mais dificuldade em assumir funções de pura generosidade. Encontramo-nos diante do desafio de planejar o futuro de nossos entes queridos que chegarão a 80, 90 ou 100 anos. Como já ocorre na Europa e em outros países desenvolvidos, é crescente a população dos que necessitam de cuidados, é decrescente o número dos que estão preparados e disponíveis para esses cuidados.

É bom que a gente observe exemplos de amigos que felizes deixam de ir à praia para cuidar do seu pai querido. À distância, cuidar de alguém parece uma tarefa difícil. Pode bater uma certa impotência, o sentimento de que não é capaz de fazer isso.

Na medida em que a gente se aproxima, começa a fazer, progride no cuidado, a descoberta é a do verdadeiro amor. Descobre-se então uma reciprocidade nunca experimentada entre aquele que cuida e aquele que é cuidado. Um exemplo bem claro disso é a reciprocidade entre avós e netos que têm uma convivência intensa. São inseparáveis, confidentes, mutuamente carinhosos. Precisamos preparar-nos para cuidar e para ser cuidado por outros.