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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Prazos que doem e matam
Sábado,  18 NOV 2017
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 O tempo é um verdadeiro paradoxo em nossas vidas. Há poucas décadas, quando queríamos fazer um comunicado, dependíamos de cartas que demoravam dias para chegar ao destinatário. Parecia-nos razoável. Hoje, quando a internet demora alguns segundos a mais para abrir a caixa de mensagens, ficamos irritados. Parece-nos muita lentidão.

Utilizamos hoje automóveis preparados para velocidades superiores a 150 km por hora, mas rodamos por ruas e rodovias cuja velocidade máxima não permite 60 km por hora. Quando a legislação permite, os buracos impedem. Ao receberem tímidas e demoradas melhorias, são logo reinauguradas com pompa e circunstância.

Algo semelhante ocorre com os prazos que nos são apresentados para determinadas ações, esperadas, desejadas ou necessárias. Fico imaginando como se sente um profissional da saúde ao informar um paciente portador de grave moléstia que deverá esperar meses por um exame clínico rotineiro. Passados meses, informar o mesmo paciente que deverá esperar mais tempo para uma consulta médica para prescrever medicação ou intervenção quanto ao que foi revelado pelo exame.

Imagino o desconforto do médico ao atender o paciente, sabendo que o tempo decorrido contribuiu para agravar a doença. Infelizmente tal anacronismo ocorre na rede pública e na maioria dos planos de saúde. É comum, mas não é normal. É inaceitável. Não se pode acostumar com isso. Precisa ser mudado.

Quando ocorre um grave acidente ou crime, durante a avalanche de informações por rádio, TV, jornais e sites, sempre nos é passada a terrível informação: “o relatório final da perícia sairá em 30 dias, podendo ser renovado por mais 30 dias”. Com os atuais recursos tecnológicos, continua sendo necessário todo esse prazo?

Para as famílias envolvidas, principalmente das vítimas, isso é cruel. O que fazer, pensar e decidir durante tanto tempo? Com o passar deste, alguns dados e resquícios não desaparecem ou são prejudicados?

Nos meios empresariais, o tempo investido na produção, venda e distribuição são cruciais para bons resultados e para a diferenciação junto à concorrência. Todos que participam do processo são muito cobrados quanto ao cumprimento de prazos.

Neste caso, e em muitas outras situações da vida, tempo é dinheiro. Já na esfera pública, praticamente todos os processos têm previsão legal quanto a prazo. Alguns prazos legais já não são compatíveis com o ritmo do mercado e com a dinâmica da vida contemporânea. Para piorar, nem sempre os prazos são cumpridos. Frequentemente se apresentam sem previsão.

Já vi o sofrimento de muitos trabalhadores aguardando pelo desfecho de uma demanda. Contam-se em muitos milhares os idosos brasileiros que aguardam o pagamento de precatórios, sempre adiados. O que fazer durante a espera se não há qualquer compromisso quanto à data de pagamento?

Algumas vezes quase apanhei por causa de descumprimento de prazo. Trabalhei numa faculdade em São Paulo, cujos diplomas estavam atrasados há mais de 3 anos. Quando alguém precisava do documento para alcançar uma promoção no emprego ou assumir uma função pública via concurso, era uma crise horrível.

Foi necessário enorme esforço para convencer mantenedores, criar um mutirão e sanar de vez o atraso na emissão de diplomas, direito adquirido pelos formados naquela instituição.

Todos que lidamos com os mais diversos tipos de processos precisamos avaliar se os prazos continuam adequados ao atual estágio tecnológico e à dinâmica contemporânea de vida. Precisamos sobretudo nos colocar no lugar daquele que precisa esperar, avaliando a sua angústia, sofrimento e possíveis prejuízos. Muitas são as situações em que prazos já desnecessários ainda são mantidos.

Fazer esperar, costume tão arraigado em nosso meio, nos atendimentos profissionais, nas festas ou nos encontros, é sempre desagradável, quase sempre dói. É possível que cada um de nós possa fazer algo para adaptar prazos ao ritmo atual de vida. Ser pontual, não aceitar atrasos, propor melhorias já é um bom primeiro passo.