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BragançaPaulista21 Jan 2018


Colunistas


Percepção e compreensão
Sábado,  11 NOV 2017
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 Um casal e seu filho fazem um passeio inédito num local bucólico. O pai logo ficou encantado com o que via: a luz do sol, as cores das flores e a movimentação dos pássaros. O filho logo se queixou do calor, depois, incomodado, passou a pedir o encerramento do passeio.

A mãe, por sua vez, estava cada vez mais encantada com o ruído que o vento fazia na vegetação e com o gorjeio dos pássaros. Uma mesma família, várias percepções da realidade.

Isso é muito comum acontecer. Todos nós percebemos aquilo que acontece ao nosso redor por meio das janelas sensoriais. Utilizamos a visão, a audição, o olfato, o tato e a sensibilidade do nosso corpo para perceber as coisas. Individualmente costumamos privilegiar uma das janelas sensoriais. O pai acima é predominantemente visual, a mãe auditiva, já o garoto tem sensibilidade à flor da pele.

Isso é uma riqueza para uma família, um grupo de estudos ou uma equipe de trabalho. A contribuição individual diferenciada ajuda numa percepção mais abrangente da realidade, permitindo uma compreensão multidimensional, colorida e sonora. No entanto, essa multiplicidade é de alguma forma uma elaboração recente, ocorrida no bojo das teorias da inteligência emocional.

Essa riqueza é ainda ampliada pelas teorias das múltiplas inteligências de Gardner: espacial, naturalista, musical, lógico-matemática, existencial, interpessoal, corporal-cinestésica, linguística, intrapessoal e espacial. Portanto, aquilo que é percebido por diferentes janelas sensoriais ainda é processado por diferentes inteligências.

Sem deixar de ser uma riqueza, as diferentes formas de compreensão dos dados da realidade podem gerar algum atrito. Por exemplo, o passeio acima mencionado pode terminar antes da hora, depois de algum conflito, gerando mau humor.

É importante no âmbito da família identificar essas diferenças, para que possam ser respeitadas e valorizadas. Para que em algumas situações possam ser minimizadas antes de gerarem conflitos desagradáveis. Em relação às crianças, é importante identificar quais percepções lhes são mais naturais, reforçando-as. E quais são menos frequentes, estimulando-as.

No âmbito escolar, essas teorias das janelas sensoriais e das variadas inteligências ainda não estão muito presentes. A pedagogia é ainda predominantemente baseada na inteligência racional, deixando a inteligência emocional em segundo plano. Alunos com predominância cinestésica-corporal são tidos como indisciplinados.

Uma boa aula depende de recursos visuais, auditivos e sensoriais. Poucos professores se dão conta de que em sua turma existem diferentes formas de percepção a exigir variadas abordagens de um mesmo tema para conseguir a compreensão da maioria dos seus alunos.

No ambiente comercial, ocorre a mesma coisa. Um vendedor que fala muito causa desconforto num comprador visual. Este quer ver, observar detalhes, conferir. Para isso, precisa de uma certa distância do produto desejado. Não quer interferência.

Cabe ao vendedor sensível facilitar o acesso visual. Já o comprador cinestésico pouco liga para as informações verbais do vendedor, o que ele deseja é tocar no produto, sentir na pele sua textura, experimentar o conforto que ele oferece. O auditivo, por sua vez, gosta de receber as informações verbais, chega a inclinar-se um pouco, oferendo o ouvido para as informações disponibilizadas pelo vendedor.