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BragançaPaulista21 Jan 2018


Colunistas


Se soubesse o dia e a hora
Sábado,  04 NOV 2017
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 Freis e freiras de todas as congregações religiosas, individualmente ou em comunidade, rezam diariamente, de manhã, no meio do dia, à tarde e à noite, o ofício das horas, composto de salmos e outros textos bíblicos. Uma anedota antiga conta que dois religiosos viajavam num barco. Rezavam o ofício das horas quando o barco é atingido por uma tempestade.

Apavorado e deixando de lado o livro de orações, diante do perigo de morte iminente, um sugere ao outro que rezem. Era como se dissesse que a oração rotineira não era suficiente, sendo necessária uma oração especial para aquele momento.

Por ocasião de finados, quando reverenciamos amigos e parentes já falecidos, quando refletimos sobre a finitude de nossa própria vida terrena e intensificamos nossa fé na vida eterna, ainda mais plena e abundante, proponho a mim e a você leitor, uma pergunta: o que faria a partir deste instante se soubesse o dia e a hora de sua morte?

Pessoas que vivem intensamente a espiritualidade e a fé em Deus, Senhor da vida, creio que continuariam sem alterar significativamente seu cotidiano. Ao invés de se preocupar com a própria passagem para a nova dimensão, provavelmente se dedicariam a preparar pessoas próximas para que sofram menos os impactos da despedida. Isso não é comum.

Talvez levadas pelo instinto da sobrevivência, mesmo pessoas altamente espiritualizadas aceitam a morte como fase de transição para uma nova realidade de vida ainda mais próxima de Deus, mas não têm muita pressa em deixar o mundo terreno.

Mais comum é encontrar pessoas que nem gostam de conversar sobre a morte. Tem diante dela um certo pavor. Ainda não se sentem preparadas, gostariam de adiar ao máximo tal acontecimento. Esse adiamento não está ligado a tempo maior para uma melhor preparação. Significa apenas deixar para lá, para depois, não enfrentar o fato mais decisivo e certeiro da vida.

Não poucas pessoas, se tivessem a sorte de saber dia e hora de sua morte, certamente correriam para arrumar as coisas. Fazer em pouco tempo o que não fizeram ao longo da vida. Alguns correriam para ainda buscar soluções para problemas que estão deixando para a família: pendências financeiras, desavenças familiares, assinatura de documentos.

Outros, provavelmente, agiriam para fazer correções no modo de viver. A exemplo do que ocorre depois de um acidente ou doença grave, levariam uma vida diferente a partir desse momento, menos individualista, mais espiritualizada, centrada em atenção às pessoas próximas.

Diz a canção de Túlio Dek: “O que se leva da vida é a vida que se leva. Se tu vacilar então já era”. O extremamente egoísta, que pensa apenas em si, custe o que custar, inclusive a felicidade daqueles que estão ao seu redor, está pronto para colher uma “vida” isolada. Aquele que sempre se dedicou à convivência harmoniosa está pronto para uma vida fraterna, compartilhada, plena de amor.

Quem sempre procurou a Deus e abriu espaço para o amor no seu dia-a-dia, antecipou aqui muitas das características da vida eterna, está preparado para estar lá, percebe que está pronto para ser acolhido na vida em plenitude.

Na perspectiva cristã, mesmo aquele que perdeu tempo ao longo da vida, concentrando-se em diversão, coisas vãs e, inclusive, negando a Deus com suas atitudes, ainda tem uma chance preciosa quando o fim se aproxima.

É hora de buscar mais do que nunca a Deus, seu amor e o seu perdão, reconciliando-se com aqueles que estão ao seu redor. A respeito deste tema, o próprio Cristo orienta explicitamente: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir” (Mateus 25:13).