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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Ao mestre com carinho
Sábado,  14 OUT 2017
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 Muitas profissões deixaram de existir ou perderam importância nas últimas décadas. Novas profissões apareceram. Outras passam por profundas modificações. A arte de ensinar, de despertar sonhos e de preparar gerações inteiras para o presente e o futuro continua ocupando lugar de destaque nas sociedades atuais. Mas defronta-se cada vez mais com novos desafios. Não é mesma coisa lecionar hoje e num passado recente.

A sociedade brasileira está próxima de ter a totalidade de suas crianças e adolescentes na escola, mas está longe de ter escolas seguras, bem equipadas, com professores bem preparados, adequadamente remunerados e plenamente realizados com o exercício da sua profissão. A insegurança, a violência e a precariedade das comunidades populares invadem o ambiente escolar.

Professores sempre foram além da sua função técnica de facilitar a aprendizagem dos alunos. Muitos são mestres na essência desta palavra: tornam-se referência, modelo a ser seguido, estímulo para o crescimento. Aquele que tem vocação para a educação sempre marca a vida de seus alunos, é lembrado para sempre.

De outro lado, educar não é uma tarefa que se improvisa. Em momentos de crise econômica é comum acontecer que profissionais de outras áreas tentem dar aulas. Muitos logo percebem que não nasceram para isso. Ou os alunos logo percebem que ele não é do ramo. Pode até dar conta da matéria, mas tem dificuldades em lidar com a turma, não consegue contornar problemas disciplinares e, principalmente, não consegue envolver os alunos como os mestres fazem.

No contexto das profundas transformações vividas atualmente pela família, em função do pouco tempo que os pais têm para as crianças, de separações de casais, de segunda união, de crianças cuidadas por avós e, inclusive, de violência dentro de casa, os professores, sem terem formação em psicologia, exercem diariamente cuidados requeridos para estimular crianças apáticas ou acalmar crianças agitadas.

Outro desafio importante é cuidar do entrosamento e da boa convivência de todos. Muitas crianças brincam, convivem e são chamadas pelo próprio nome apenas na escola. Requerem toda a atenção e carinho que não encontram em outros ambientes que frequentam.

A inclusão de crianças portadoras de necessidades especiais, sejam físicas, psíquicas ou emocionais, é uma orientação valorizada hoje. Quase sempre sem preparação especializada, os professores defrontam-se com duplo desafio: conduzir a turma e, ao mesmo tempo, dar atenção individualizada a alunos com necessidades especiais de cuidados, orientação e aprendizagem, em ritmo completamente diferente da turma.

Outro desafio é a presença dos avanços da linguagem informatizada. Principalmente, professores mais antigos encontram-se defasados em conhecimentos tecnológicos em relação aos seus próprios alunos.

Estes utilizam todos os recursos disponíveis nos computadores e celulares, o professor não tem a mesma habilidade. Precisa progredir para que o seu trabalho docente tenha maior sintonia e mais facilidade de comunicação com os próprios alunos. Não se trata apenas de saber utilizar alguns poucos recursos disponíveis, trata-se de assimilar e utilizar uma nova maneira de ensinar e de compreender.

Todos esses desafios não são acompanhados por uma remuneração adequada. Já vi renomadas escolas trocarem quadro docente antigo por um novo apenas para reduzir significativamente custos. Com salários bem apertados, os professores necessitam hoje investir na própria carreira, fazer pós-graduação e estar atualizado. Necessitam de tempo e de recursos para conseguirem isso.

No entanto, vale a pena ser professor. Da mesma forma que cada um de nós lembra-se de professores que se tornaram referência em nossas vidas, a maioria dos atuais mestres também será lembrada durante muito tempo. “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina” (Cora Coralina).