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BragançaPaulista17 Jan 2018


Colunistas


Enquanto há tempo
Sábado,  16 SET 2017
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 Todo agricultor, grande ou pequeno, antes de fazer uma plantação escolhe o terreno e o prepara para o cultivo. Ao lançar as sementes, sabe que terá pela frente algumas ações que deverão ocorrer no devido tempo: adubar, regar, afastar pragas, aves daninhas ou animais predadores e fazer a colheita. O atraso ou a imperícia em qualquer dessas atividades pode colocar tudo a perder.

A manutenção de um jardim bonito também depende de cuidados constantes. Ao notar as primeiras ervas daninhas, é necessário ajoelhar-se e com uma ferramenta adequada ou com as próprias unhas, arrancar a batata ou a raiz. Ou então recomendar ao jardineiro que faça isso, com esmero, já na próxima visita.

A distração nesse caso pode trazer grandes prejuízos. Chega uma hora, e logo, que gramas e flores já se encontram num equilíbrio de forças com as ervas daninhas. Fica difícil separar umas de outras. Já vi casos em que a única solução é arrancar tudo, curar a terra e plantar um novo jardim. É a vitória devastadora do mal sobre o bem, o bonito e o colorido.

Nosso país de imensas matas verdes, de enorme riqueza no subsolo, de agricultura altamente competitiva, de longo litoral azul, de população laboriosa e harmoniosa não obstante diversidade cultural, de expressiva capacidade produtiva instalada e de grande potencial de consumo, que sustenta sua própria economia, pode estar vivendo um momento crucial em função da presença e atuação de gananciosos predadores.

A enorme quantidade de denúncias, apurações e condenações de políticos de praticamente todos os grandes partidos, de autoridades dos vários níveis de poder, de empresários que já foram símbolo de arrojo e de uma ampla corja que gravita ao seu redor, resulta apenas de mais rigor das apurações ou estamos descobrindo as entranhas de um modo viciado, ilegal, sistêmico e imoral de fazer as políticas públicas, principalmente, aquelas que beneficiam interesses corporativos?

Se o mal está sendo descoberto em tempo de ser arrancado sem prejudicar aquilo que existe de bom e promissor em nosso país, é necessário agilidade, rigor e eficiência nessa limpeza. Tem-se a impressão que vários segmentos policiais e judiciais estão firmes nessa empreitada. A imprensa, de uma forma geral, parece atenta e insistente na divulgação de avanços e retrocessos na limpeza que se faz necessária.

A corrupção deteriora todo o tecido social. Hoje, não são poucas grandes empresas nacionais e multinacionais que deixaram de existir porque descobriram tardiamente seus efeitos malignos. Países inteiros, como a Venezuela, rica em petróleo, continuam sem rumo. Não podemos chegar perto disso. Quanta vergonha passamos, os brasileiros, durante as recentes viagens de nosso presidente ao exterior!

Parece-me que, enquanto população, estamos um tanto alienados neste momento. Estamos distantes daquela movimentação efetiva das “Diretas Já”. Se queremos reconstruir o país mais adiante, precisamos agir mais intensamente já, para consertar as coisas enquanto é tempo. Um primeiro passo é sermos mais exigentes com aquilo que ocorre ao nosso redor.

Outro passo é exercer com empenho a autoridade que temos em casa, na escola, no trabalho e no dia-a-dia da nossa cidade. Um pai tolerante de hoje, um professor que fecha os olhos para as indisciplinas, uma autoridade local que não desempenha plenamente seu poder, podem estar dando espaço ao avanço da corrupção e ao estabelecimento da impunidade. Temos muito trabalho pela frente. Entre outras, criar alternativas políticas promissoras para o pleito de 2018, ainda inexistentes.

A política, enquanto embate de alternativas para o pleno convívio social, apesar das diferenças econômicas, sociais, culturais e regionais, continua necessária e depende de pessoas honestas, competentes, articuladas e dispostas a sacrifícios. Infelizmente, foi invadida por desonestos, que se utilizam do poder público para saciar interesses individuais ou de pequenos grupos.