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BragançaPaulista22 Jan 2018


Colunistas


Tradições religiosas do passado
Quarta-Feira,  06 SET 2017
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 Durante a minha infância, frequentava assiduamente a Igreja Matriz. Gostava de assistir as missas celebradas pelo vigário da Catedral, Monsenhor Juvenal de Toledo Kohly e, apesar de estar matriculado no Jardim da Infância do Colégio Sagrado Coração de Jesus, assistia às aulas de catecismo ministradas aos domingos de manhã, a partir das 9h00, pela mestra D. Placídia Rosa.

Dessa forma, além de preparar-me para a minha primeira comunhão no citado Colégio, aprendia muito com os ensinamentos ministrados pela D. Placídia e muitas vezes pela D. Noêmia Vasconcelos. Após a aula de catecismo, havia missa às 10h00 que geralmente tinha a participação do Coro formado por jovens, senhores e senhoras da paróquia, acompanhados por D. Angelina Scaglioni ao órgão.

Naquele tempo, a missa matinal diária era realizada às 6h30, e à noite geralmente havia reza, sendo que nas noites que antecediam os dias de festas religiosas, tais como as trezenas, as novenas ou os tríduos das festas do Divino, de Nossa Senhora Aparecida, de São José ou da Imaculada Conceição, também havia a participação do referido Coro e as rezas eram mais solenes, contavam com a presença do Bispo Diocesano Dom José Mauricio da Rocha.

Durante todo o mês de Maio, havia rezas diárias promovidas pelas Filhas de Maria e no último dia do mês acontecia a solene coroação de Nossa Senhora.

Monsenhor Kohly, em todas as oportunidades exortava os fiéis a guardar os muitos dias santos e feriados religiosos que eram respeitados pelo povo católico. Começavam no dia 01 de janeiro, Circuncisão do Senhor; 06 de janeiro, a Festa dos reis Magos (Epifania). Dia 02 de fevereiro, dia da Purificação de Nossa Senhora; 19 de março, São José; e a Anunciação de Nossa Senhora, no dia 25 do mesmo mês. Em 29 de junho guardava-se o dia de São Pedro e São Paulo. Dia 15 de agosto comemorávamos a Assunção de Nossa Senhora. Dia 8 de setembro era dedicado à Natividade de Nossa Senhora e realizava-se a tradicional Festa de Nossa Senhora da Penha.

No dia 01 de novembro, a Festa de Todos os Santos; e em Dezembro havia dois dias santificados, 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de nossa cidade, e 25 de dezembro, o nascimento de Jesus. Além disso, havia a comemoração da Semana Santa, quando os fiéis trabalhavam até a quarta-feira e guardavam os demais dias, principalmente a Sexta Feira Santa, que era um dia de luto e de jejum.

Com o decorrer do tempo, a própria Igreja Católica tirou muitas festas religiosas do calendário litúrgico e hoje a maioria dos dias que eram santificados são considerados dias comuns, o comércio funciona normalmente, havendo na maioria dos dias citados apenas uma missa.

Naquele tempo, os padres Alfredo Meca (depois agraciado com o titulo de Monsenhor) e o padre Luiz Gonzaga Peluso, que era o capelão da Igreja do Rosário, se desdobravam e celebravam missas na capela da Santa Casa, no Asilo, e quando havia festas nos bairros da zona rural, bem como nos então distritos que atualmente são sedes de município, em comemoração a seus Padroeiros, celebravam missas e tomavam parte nas procissões que percorriam determinados locais do bairro ou as principais ruas do povoado, com o povo acompanhando o andor do santo homenageado que, à chegada na Capela era recebido com espocar de rojões e fogos de artifício.

Muitos de nossos contemporâneos devem se lembrar da época em que Bragança ainda não possuía o Reservatório e Estação de Tratamento de Água, depois construídos no local que fica ao lado do Posto de Monta, e na época de estiagem a cidade sofria com a falta de água, havendo dias em que as torneiras ficavam secas, obrigando as pessoas a procurar água nas diversas ‘bicas’ existentes na cidade, para beber e usar na alimentação. Formavam-se extensas filas de pessoas com baldes, garrafões, litros e outros vasilhames nessas vertentes, com o fito de levar para casa o precioso líquido.

Nessas ocasiões, geralmente a partir do mês de julho, o Monsenhor Kohly fazia realizar uma procissão que saía da Igreja Matriz e seguia até a igreja de Nossa Senhora da Penha, no bairro do mesmo nome, bem distante da cidade, para buscar a imagem de Nossa Senhora e trazê-la para a Matriz.

O caminho percorrido pela procissão era penoso, pois não havia calçamento a partir da esquina do Mercado Municipal com a Travessa Paysandu, hoje Rua Nicolino Nacaratti, e o trajeto era sobre estrada de terra até alcançar a Igreja de Nossa Senhora da Penha. A subida do morro (atual Avenida Dr. Marrey Júnior) era íngreme e pedregosa, o que dificultava ainda mais a jornada.

À frente do préstito em direção à Penha, seguia uma cruz levada pelas mãos de Irmãos da Confraria de São Benedito, acompanhados pelas Irmandades em fila que entoavam cânticos religiosos, entremeados pela reza do terço e geralmente havia alguns andores de santos. Atrás do último andor, o vigário ladeado pelos Irmãos do Santíssimo Sacramento, acompanhava todo o percurso da procissão.

Na volta para a Catedral, vinha a imagem que era reverenciada, ao pé da qual eram rezados terços e além de preces, havia rezas à noite, quando então eram feitos pedidos à Nossa Senhora, para que intercedesse junto à Deus o envio das chuvas necessárias e assim a situação voltasse à normalidade.

Depois de alguns dias de chuva, a imagem era novamente levada em procissão de agradecimento até o seu Santuário, acompanhada dos féis devotos. O fato relevante que as preces eram atendidas antes de chegar o dia 08 de setembro, dia da comemoração da Natividade de Nossa Senhora, uma vez que nesse dia a imagem de Nossa Senhora da Penha sempre estava recolocada em seu nicho na Igreja que leva seu nome.

Assim era nossa tradição católica naquele tempo. Essas recordações nos vem à mente, ao assistir a ordenação de 3 novos sacerdotes pertencentes à Diocese de Bragança Paulista em nossa Catedral, os quais receberam o Sacramento da Ordem em presença de enorme número de seus conterrâneos que, com vibrações de alegria receberam os novos sacerdotes e oraram com enorme devoção para que os novos pastores de almas cumpram a missão que lhes foi confiada.

Foi a demonstração de que a Igreja realiza atos como aqueles que ficaram na nossa memória. E nos faz crer que, no futuro, alguns daqueles jovens que participaram da cerimônia ora realizada, tenham lembranças dos ritos religiosos que presenciaram e possam, quem sabe, registrá-las como nós fazemos, para que não se percam na memória de nosso povo.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.