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BragançaPaulista24 Fev 2018


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A polêmica da RENCA: mais recursos naturais e desenvolvimento para o quem?
Terça-Feira,  05 SET 2017
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 A polêmica em torno da suspensão do decreto que criou a RENCA (Reserva Nacional do Cobre e Associados) em 1984 tem sido discutida, na maior parte das vezes, com a mesma polarização que permeia todas as demais discussões de interesse coletivo no Brasil.

A RENCA não foi criada como uma reserva ambiental, e sim uma reserva mineral de interesse estratégico nacional. Entretanto, com a emergência de evidências da importância da preservação de áreas como a Floresta Amazônica, a RENCA passou a concentrar um duplo e contraditório território de interesses: o da demanda insaciável de recursos minerais para produção de tudo que consumimos, e lembrem-se que consumimos de forma muito desigual no Brasil e no mundo, e por outro lado, temos uma questão extremamente complexa do interesse nacional e internacional envolvendo a preservação Amazônica, mirando de modo muito mais sintomático na consideração sobre a importância desta região para resguardar a resiliência do sistema climático tal conhecemos hoje, devido às evidências de mudanças climáticas.

Com a extinção do decreto sem discussão aberta, lúcida e democrática, ampliada pelo vazamento da constrangedora informação de que fora do Brasil investidores da área de mineração souberam da extinção da RENCA antes que os brasileiros, os políticos nos expuseram da pior forma: como incompetentes para cuidar de um patrimônio tão precioso como o que temos na Amazônia. Não duvido que seja um erro muito proveitoso para alguns atores internacionais de que essa imagem de incompetência seja reforçada e construída sistematicamente.

O patrimônio amazônico é pleiteado como algo de interesse para além das fronteiras do país, por sua importância global. Mas não se enganem, as fronteiras só caem num mundo globalizado onde há conveniências. Não haverá rompimentos de fronteiras com a mesma facilidade quando se tratar da erradicação de miséria a partir de uma divisão mais justa do uso de recursos naturais no mundo.

Para preservar e conservar é preciso conhecer, é preciso entender, é preciso educar. Conhecer a Amazônia e seus desafios frente ao avanço de fronteiras de reserva de valor para a economia nacional e global perpassa avaliar que o que consumimos gera demandas por mais recursos naturais e pressão sobre essas áreas; que o avanço do agronegócio também opera pressões na região; que a demanda de energia gerada na Amazônia faz parte do cenário de atendimento a um modo de vida pouco sustentável que adotamos; que a biopirataria existe porque o potencial de riqueza da biodiversidade está, entre outras coisas, associada à descoberta de fármacos, que geram bilhões em divisas para os países que os desenvolvem e vendem no mercado mundial.

Até mesmo entender que a conversão religiosa sistemática a que tem sido submetidos grupos indígenas nos rincões da Amazônia acelera artificialmente o contato entre culturas e visões de mundo, afastando os poucos grupos que ainda tem um entendimento do mundo, uma cosmovisão, extremamente integradas à visão sistêmica de sua existência na natureza.

Temos muito mais perguntas do que respostas quando se trata da extinção da RENCA e os frutos de sua exploração, contudo uma questão é crucial: essa riqueza nacional, assim como outras reservas exploradas no Brasil, realmente trará algum benefício concreto para um país tão castigado pela pilhagem histórica e sistemática de seus representantes, grandes empresários e suas negociações escusas?

Dizem que são as perguntas que movem o desejo de conhecer, de ampliar horizontes. Então, façamos as perguntas voltadas para os processos que geram as pressões sobre a Amazônia e busquemos as respostas de modo amplo e democrático. PATRICIA MARTINELLI, GEÓGRAFA, COLABORADORA DO COLETIVO SOCIOAMBIENTAL BRAGANÇA