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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Felicidade sem alegria
Sábado,  26 AGO 2017
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 Em fevereiro de 2012, depois de entrar noite adentro farreando intensamente no requintado bar, a renomada cantora Whitney Houston se retirou e subiu para seu luxuoso quarto no famoso hotel Beverly Hilton. No quarto, entregou-se a um coquetel de drogas e álcool, e de madrugada foi encontrada morta dentro da banheira. Whitney Houston tinha muita felicidade à sua disposição, mas lhe faltava alegria.

A atual ausência de reflexão aprofundada causa a ausência de discernimento quanto às duas experiências, da felicidade e alegria. Consequentemente, em geral se assume que as duas se referem à mesma coisa, criando uma visão superficial da vida e um entendimento pífio sobre o existir.

Os pensadores gregos da antiguidade muito debateram o conceito de felicidade (makarios). O assunto e reflexão têm sua complexidade, mas, para uma elucidação atual é suficiente o entendimento que, para os gregos, felicidade era a liberdade das preocupações normais da vida, condição gozada por aquele que encontrava a chamada boa sorte: dinheiro, saúde, filhos, etc. Nos nossos dias, felicidade é aquilo que se tem ou pode desfrutar sensorialmente que, com as devidas variações, passa por dinheiro, poder, viagens, festas, lazer, esportes, status, sexo, realidade artificial da droga/álcool, etc.

Mas os gregos também falavam em alegria (chairo). Era descrita como a “culminação do ser” ou “bom humor da alma”. Escrito no grego antigo, o Novo Testamento na Bíblia, fala que “chairo”, ou alegria, é encontrada somente em Deus, sendo virtude e sabedoria. É relevante notar que “chairo” não é primordialmente o oposto de tristeza, mas do medo, incerteza e vazio. Na ausência destes, ou seja, domina a alegria.

Então, no Novo Testamento, no grego antigo, o termo “makarios”, ou felicidade, foi apropriado e interpretado dentro da visão bíblico-cristã. Foi usado para apontar uma condição privilegiada que alguém desfrute, mas como sendo uma dádiva divina. Então, na visão bíblico-cristã, a felicidade desejável, aceitável e edificante é aquela que não viola a alegria cristã. E a alegria cristã é distinta da felicidade.

Desassociada da alegria cristã, uma dádiva divina, a felicidade atual, como apenas prazeres mundanos, é traiçoeira. A felicidade buscada e propagada nestes dias é experiência externa, mas a alegria é interna. A felicidade é circunstancial, e alegria está além e acima da circunstância. A felicidade é fugaz, a alegria é estável. A felicidade é física-sensorial, a alegria é espiritual-transcendente. A felicidade se refere na condição temporal, a alegria se refere à paz, esperança e eternidade. A felicidade depende das coisas e pessoas, a alegria depende do relacionamento com Deus.

Vivemos num mundo onde vender a felicidade é o grande negócio, inclusive na esfera religiosa de fachada cristã – o mercado da fé da prosperidade. Aliás, na religião atual a busca é pela felicidade, ou seja, por aquilo que se consiga usando Deus, e não pela alegria do encontro e desfrutar do Deus eterno. O prazer não está primeiramente em Deus, mas no que se pode conseguir de Deus. A verdade é que, o ser humano atual, cada vez mais longe de Deus, agrava seu vazio, sendo um freguês insaciável do mercado da felicidade que domina a publicidade e mídia.

Entretanto, o grande equívoco é que a felicidade é vendida como alegria, isto é, a mercadoria é diferente do rótulo oferecido. E o equívoco se completa porque os fregueses estão carentes de alegria em suas almas, mas pensam que necessitam felicidade. Whitney Houston poderia descrever bem essa saga. E esse equívoco pode ter uma presença muito enganosa, como ponderou C. S. Lewis em seu livro “Surpreendido pela Alegria”: “Eu às vezes reflito se todos os prazeres não são substitutos da alegria.”

A alegria é consequência de se viver na presença de Deus. A alegria chega apenas quando no mais íntimo da pessoa, âmbito chamado às vezes de alma e às vezes de coração, habitar a paz com Deus e a esperança eterna em Deus. Por isso, mesmo em meio a desafios, depois de se acertarem com Deus, séculos antes de Cristo, o povo ouviu do líder Neemias, o reconstrutor dos muros de Jerusalém: “... a alegria do Senhor é a vossa força” (Bíblia, Ne 8:10).

A paz com Deus, portanto a alegria, é possível apenas em Cristo, mediante a cruz, fonte e meio de perdão gracioso. É o acerto com Deus. Falando da alegria divina que vem através dele, Cristo afirmou: “…ninguém lhes tirará a alegria” (Bíblia, Jo 16:22). O cansaço da felicidade mundana será ultrapassado somente quando, entoando o título na versão em Português, se cantar com Bach: “Jesus, a alegria dos homens”. Ou, Jesus, permanece sendo a minha alegria.