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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


O pai eterno
Sábado,  12 AGO 2017
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 Quando estou com um tema na cabeça para esta coluna, começo a ver coisas que de outra forma não veria. Vi sem querer um filme na TV na noite da segunda-feira. Um casal de jovens recebe ainda na maternidade a notícia de que seu filho primogênito é portador da síndrome de Down.

O pai fica muito chocado, desconcertado. A notícia provoca no pai uma enxurrada de emoções contraditorias e conflitos que acabam afetando sua relação com o trabalho e com a sua esposa.

Sem que os efeitos do choque inicial tenham passado, o casal vai descobrindo as dificuldades a cada dia. Embora o casal esteja grande parte do tempo junto, como costuma acontecer com muitos casais que vivem situações semelhantes, a reação dele frequentemente é bem diferente da maneira como ela encara os contratempos inerentes aos cuidados do filho.

Os conflitos vêm à tona, tornam-se volumosos. Com alguma frequência, o esposo e pai pensa em deixar tudo e recomeçar a vida como sempre imaginou. Oportunidade para isso não lhe falta em suas viagens a trabalho.

Tarefa gigantesca e infrutífera é buscar recursos especializados em situações semelhantes. É desconcertante ser chamado na escola para receber a notícia de que o garoto não poderá continuar ali, devendo procurar uma escola especializada. Irritante é dedicar atenção diária durante quase 24 horas, sem poder dedicar-se à relação do casal e ao próprio trabalho.

Desesperador é constatar ausência de progressos mínimos. Com o passar do tempo, amigos tornam-se raros, e parentes, distantes. O avô paterno é uma exceção, verdadeiro oásis. Tudo isso é retratado no filme “O Filho Eterno”, baseado na obra do escritor catarinense Cristóvão Tezza. Aqueles que passam situação semelhante, amigos e parentes de casais que têm filhos com alguma síndrome, podem aprender algo com essa obra. Vale a pena conferir.

Se existem filhos que necessitam de cuidados paternos durante muito mais tempo do que aquilo que é comum, fazendo aqui uma analogia ao título do livro e do filme, é possível dizer que também existe entre nós “pai eterno”. De fato, uma vez pai, sempre pai. Mesmo aqueles que por algum motivo tomam distância de um filho, no seu íntimo estão sempre presentes a lembrança, a saudade e o carinho. Às vezes, o remorso e o não saber voltar atrás.

Já estava com esse tema na cabeça por causa do dia dos pais quando num almoço vi a chegada de uma família. Na frente vinha a mãe e algumas crianças. O pai vinha atrás. Trazia no colo, envolto em cobertor, um bebê.

A relação de ambos me pareceu muito intensa desde o primeiro instante. Mais tarde observei que todos comiam, o pai, muito compenetrado, balançava o carrinho do bebê. Depois, enquanto este dormia, o pai continuou olhando para ele durante muito tempo. Pareceu-me que antecipava com a mente e o coração os primeiros passos, o primeiro dia na escola, o jogo de futebol, a infância, a juventude, a vida adulta. Projetava alegria e felicidade para o filho. E para ele próprio.

Há algum tempo observo um casal de médicos que dedica bastante tempo a uma dupla de filhos pequenos. Fazem passeios a pé, brincando e conversando. Andam de bicicleta. Mexem no mato e na terra.

Estão sempre mostrando aos pequenos, detalhes e curiosidades da natureza. Conversando rapidamente com eles fiquei sabendo que trabalharam como médicos em São Paulo. A carreira tinha decolado por lá. Mas optaram pela vida no interior, correndo inicialmente alguns riscos profissionais. Avaliam, no entanto, que valeu a pena. Opinam que tempo e conviver intensamente com as crianças, nesta fase da vida delas, não tem preço.

Diante de Deus, que é Pai e é Eterno, dediquemos a mais profunda de nossas orações, o carinho mais intenso possível àquele que contribuiu para o nosso nascimento, àquele que nos acompanhou ao longo dos anos para que chegássemos ao estágio em que nos encontramos.

Peçamos a Deus, que é Pai, Amor e Misericórdia, a capacidade de perdoar ações ou omissões paternas. Fixemos nossa atenção nos melhores gestos, nas palavras mais edificantes e nas lembranças mais agradáveis. Feliz dia dos pais!