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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Evocando a figura de um ilustre comerciante
Quarta-Feira,  02 AGO 2017
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 Andando pelas ruas em que costumava passar durante minha infância, recordei pessoas que conheci; figuras reais que participaram da vida da cidade e de quem hoje só restam saudades.

Passando na Rua do Comércio, onde hoje existe uma grande loja na esquina com a Rua Nicolino Nacaratti (que antigamente chamava-se Travessa Paysandu, em homenagem à batalha do mesmo nome), lembrei-me de Aparício de Assis Valle que, naquele mesmo local, possuía uma loja onde vendia ferragens e desde um prego ou um parafuso a telhas cerâmicas, artigos para presentes e brinquedos, além de outras mercadorias destinadas ao lar eram encontradas em sua loja.

Recordei-me de seus funcionários, e um deles era o professor José Nantala Badue, que a maior parte de sua existência foi o responsável pela parte contábil da loja; do Demerval Ferreira da Silva, que depois abriu seu próprio estabelecimento comercial; e Milton Tomazetto, que mais tarde estabeleceu-se com uma loja de ferragens com seu pai, Felício Tomazetto e seus irmãos Tarquinio e Osvaldo.

Lembrei-me do Ismael Acedo, que morava no bairro das Pedras, do Divanir Costa, filho de Domingos Costa, um grande amigo de meu pai; do Ismael Silveira, que era sobrinho do farmacêutico Julio Silveira, do Luiz Marques, que morava no bairro do Taboão, do Luiz de Oliveira e do Jarbas, seu irmão, filhos do Valêncio de Oliveira, fiscal da Prefeitura. Muitos outros jovens daquela época trabalharam na referida firma, o que se tornaria difícil enumerar. Entretanto, não podemos nos esquecer de citar a encarregada do caixa, a Srta. Delmira, que durante muitos anos fez parte do quadro de empregados da firma.

O referido estabelecimento comercial tinha um enorme movimento. Diariamente chegavam carroças de areia que era retirada no Rio Jaguary, cal virgem (que naquele tempo vinha em vagões de carga pela Estrada de Ferro Bragantina), tijolos procedentes das olarias locais e madeiras, sendo que o carroceiro que mais trabalhava para a firma era o Francisco de Oliveira, que possuía uma enorme carroça puxada por quatro burros. Essa mesma carroça também transportava os materiais vendidos pela firma para as obras em andamento.

Na época de Natal, brinquedos de todos os tipos eram encontrados no local e para comprar um presente para casamento, a loja indicada era a do Aparício. Aparício de Assis Valle, na época de minha infância, residia na Rua do Comércio, numa casa ao lado do antigo Colégio Sagrado Coração de Jesus, onde hoje existe um Centro de Orientação para Motorista, tendo depois se mudado para a Rua Dr. Cândido Rodrigues, antiga Rua Direita. Era um exímio caçador e muitas vezes o vimos em seu Ford 29 com seus cachorros, a caminho de suas caçadas.

Gostava de política, embora não se envolvesse muito. Entretanto foi vereador, tendo participado de nossa Câmara Municipal a partir de 1936. No ano de 1937, de acordo com a Constituição promulgada em 10 de novembro daquele ano, as Câmaras Municipais foram dissolvidas, voltando a funcionar somente em 1948 e Aparício não mais se candidatou a um cargo eletivo.

Gostava de participar das discussões políticas do “Senadinho”, situado na barbearia do Oswaldo Suppioni, na Praça Raul Leme, onde, com o Arsênio Martins Ferreira Jr. (Arseninho), Adolpho Pen, Pedro Montanari, Artemio Dorsa e outros, incentivou o lançamento da candidatura de Saturnino Pacitti ao cargo de vereador, cargo que este ocupou com grande brilho, tendo trazido muitos benefícios ao nosso município.

Aparício de Assis Valle pertencia à alta sociedade bragantina e apreciava Carnaval. Nesses festejos se fazia acompanhar sempre por sua esposa, dona Alayde, descendente da tradicional família Leme de nossa cidade e juntos participavam dos bailes carnavalescos do Clube Literário e Recreativo local. Excelente pai de família, possuía uma grande roda de amizade e, graças aos seus dotes de inteligência e enorme senso de justiça, fazia parte do corpo de jurados do Fórum local.

Após seu passamento, no lugar da “Casa Assis Valle” e do prédio ao seu lado, onde residiam Angelo Marchesoni e sua família, seu filho Mauro Leme Valle, em companhia de outros progressistas bragantinos, constituíram uma sociedade anônima e ali foi construído o moderno edifício do Cine Centenário, que na parte térrea continha um bar e local para jogo de boliche e o restante do empreendimento era ocupado por moderno cinema onde eram exibidos grandes filmes. Com o advento da televisão e por outros motivos adversos, os acionistas da sociedade anônima resolveram cerrar suas portas.

Aparício de Assis Valle, exemplo de trabalho e honestidade, hoje aqui é relembrado com admiração. Seu nome deve perpetuar-se na lembrança dos que o conheceram. Aparício faz parte da história e do progresso de nossa terra.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.