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BragançaPaulista16 Jan 2018


Colunistas


Educação ambiental e cultura(s)
Terça-Feira,  01 AGO 2017
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 Dizem os especialistas que a linguagem reflete as formas das diferentes culturas de ver e entender o mundo. Assim as formas de pensar a natureza podem ser mapeadas pela linguagem, representando, ela mesma, um microcosmo de determinada cultura.

A educação ambiental contemporânea, já amplamente alinhada com essa perspectiva, permite integrar o olhar sobre a cultura, evitando o discurso da educação ambiental normativo, autoritário e doutrinário para uma abordagem muito mais voltada a considerar a formação de um sujeito ecológico inserido em determinada história, cultura e ambiente.

Um colega moçambicano contou que na região onde vivia, lago Niassa, tremores de terra eram comuns. Com aumento de população e mudanças de modos de vida, tais tremores de terra poderiam provocar um impacto e perda maior para as populações locais.

Diversos trabalhos foram feitos junto às comunidades locais tentando esclarecer os riscos, auxiliar a população a escolher locais mais seguros para habitações. Todas as explicações técnicas-científicas, todos os trabalhos apresentavam resultados mínimos, não tocavam a população.

Procurado pelas equipes que buscavam informar e orientar a população, um dos políticos da região resgatou um antigo conto da cultura oral local, no qual uma grande serpente que vivia dentro da terra, as vezes acordava e se enfurecia, fazendo a terra tremer. Ao resgatar o conto e associá-lo a abordagem de prevenção de riscos, rapidamente a população se interessou pelos possíveis caminhos em que a serpente passaria. Não por acaso, o mapa por onde a serpente provavelmente deveria despertar coincidia com o mapa de riscos sísmicos da região.

O fim desta história, não saberemos. Mas posso dizer que pode nos levar a refletir sobre nossa ignorância sobre os muitos modos de ver e conhecer os ambientes, sobre o quanto os saberes tradicionais podem auxiliar-nos, as vezes de forma poética/artística, as vezes de modo muito desafiador, a realizarmos comunicações educativas mais efetivas numa perspectiva da abordagem da diversidade de ambientes e culturas.

PATRICIA MARTINELLI, GEÓGRAFA, COLABORADORA - COLETIVO SOCIOAMBIENTAL BRAGANÇA