BJD
32 máx 18 min
BragançaPaulista16 Jan 2018


Colunistas


Sobremesa da vida
Sábado,  29 JUL 2017
Tamanho dos caracteres

 Coisa bonita de se ver é o carinho. Estava dentro do carro estacionado no centro da cidade num final de tarde. Observei então na calçada dois homens, um jovem, outro já na terceira idade. Podiam ser pai e filho, ou avô e neto.

Caminhavam lado a lado. O jovem ia abraçado ao mais velho. Conversavam animadamente. Ainda abraçados, pararam para ver o por do sol sobre um sobrado do outro lado da rua. E, abraçados, continuaram a caminhada, enquanto conversavam.

Nesta semana, vi um avô com sua neta. Também caminhavam pela calçada. A menina de poucos anos na frente, o avô ia logo atrás. Este caminha muito, faz todas as suas coisas, diariamente, a pé. Talvez esteja transmitindo este bom costume à sua neta. Coisa bonita de se ver é a interação de avós e netos. Há entre eles uma linguagem bem informal. Entendem-se facilmente. Os extremos se tocam. E se comunicam, experimentando as delícias da vida.

Recebi há dias uma fotografia no WhatsApp. Numa grande sala de visitas, estava uma velhinha, dois ou três adultos e vários adolescentes. Todos estes estavam muito ocupados cada um com o seu smartphone.

De sua cadeira a velhinha a todos observava. Na legenda constava: “acharam que a vovó podia estar muito sozinha e vieram para lhe fazer companhia”. Que coisa curiosa essa atual dicotomia: estar fisicamente presente e, ao mesmo tempo, totalmente ausente, muito distante, do ponto de vista emocional, mental e espiritual.

O assunto, no entanto, não é essa dicotomia da vida contemporânea. A coluna de hoje é uma homenagem aos avós, cujo dia celebramos em 26 de julho, data em que a Igreja Católica celebra Ana e Joaquim, pais de Maria, sogros de José, avós de Jesus. Também o Filho de Deus teve alguém para chamar de vovô e pôde experimentar delícias que somente as vovozinhas sabem fazer.

A exemplo do que acontece com outros papéis na família, os lugares ocupados e as funções desempenhadas por avós nos dias atuais são bem variados e complexos. Temos avós que criaram os filhos e agora curtem as delícias de serem avós de crianças cuidadas por seus próprios pais. É o normal, aquilo que se deseja.

Nestes casos, os avós chegam a ser cúmplices dos netos, facilitando-lhes acessos a guloseimas ou a brincadeiras que os próprios pais não permitem. Visitam os avós e são visitados por estes. Buscam a convivência cheia de afetos. Muitas histórias são contadas.

Temos avós que, levados por dificuldades de emprego e renda dos filhos, ou motivados por separações precoces, ou em função de pai ou mãe solteiro, passam a cuidar de netos como se estes fossem filhos. Cuidam de tudo: alimentação, vestuário, escola, saúde e outras necessidades. Os avós, às vezes já idosos, fazem de novo o papel de pai e mãe. Muitas avós hoje são a principal provedora da casa. Incrivelmente, dão conta do recado.

Em bancos que atendem a muitos aposentados, principalmente nos dias de recebimento, é comum ver filho ou neto recorrendo ao crédito consignado dos avós para levantar empréstimos. Não são poucos os aposentados que acabam tendo problemas financeiros mais graves por ter facilitado acesso de dependentes a seus parcos rendimentos.

Todos os avós, os que convivem no dia a dia e os que estão mais distantes dos seus netos, sorriem gostoso quando falam da quantidade de netos que já tem e expressam grande felicidade ao falar do progresso dos mesmos.

Em geral, concordam que netos são a sobremesa da vida. Nesta data, nossa homenagem a cada um dos avós. Sua palavra, orientação, carinho, cobrança, simplicidade e quitutes são marcantes e inesquecíveis, mesmo quando os netos, distraídos com as novidades cotidianas, parecem não lhe dar a devida atenção.