BJD
31 máx 19 min
BragançaPaulista17 Jan 2018


Colunistas


A epopeia de três marinheiros italianos: Alberto Bianchi, Bartolo Visicchio e Giorgio Riga
Quarta-Feira,  19 JUL 2017
Tamanho dos caracteres

 No dia 10 de agosto próximo completa mais um aniversário da chegada a esta cidade dos expedicionários bragantinos que combateram na 2ª Guerra Mundial.

Relembraremos um fato que se passou em nossa terra durante o tempo em que se desenrolou a guerra, que demonstra a grandiosidade de nossa gente e quanto o nosso povo é acolhedor.

Quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, que era formado pela Alemanha, Itália e Japão, encontrava-se ancorado no Porto de Santos o transatlântico “Conte Grande”, na época um dos orgulhos da navegação italiana.

Em virtude do estado beligerante entre os dois países, o navio foi confiscado e seus tripulantes ficaram impedidos de abandonar a embarcação. Entretanto, o governo brasileiro deliberou que, enquanto durasse a guerra, esses marinheiros poderiam ficar em terra, com a condição de se apresentarem semanalmente perante as autoridades da cidade onde residiriam, até que terminasse o conflito.

Sabedores por intermédio de seus patrícios de que em nossa cidade existia uma laboriosa colônia italiana que contribuía com seu trabalho pelo progresso de nossa terra, três deles obtiveram permissão e foram encaminhados a Bragança Paulista, que os recebeu de braços abertos.

Assim, aqui chegando, logo entraram em contato com membros da colônia italiana local e foram alojados em casas de seus compatriotas. Como estes marinheiros trabalhavam como cozinheiros, com a colaboração de nossa gente, foram convidados a trabalhar no Bar Elite, situado à Praça Raul Leme nº 111, de propriedade de Raphael Orsi e Adelmo Guazzelli.

Assim, junto ao Bar Elite, foi criado o Restaurante dos Esportes, nome escolhido pelos proprietários do estabelecimento junto com os esportistas Cícero de Souza Marques, Oswaldo de Assis Gonçalves e Dr. José Lamartine Cintra, na época dirigentes do Clube Atlético Bragantino, que almejavam um local saudável para reunião dos esportistas locais. No Restaurante, os marinheiros Alberto Bianchi, Bartolo Visicchio e Giorgio Riga passaram a trabalhar, os quais, afora saborosas pizzas, serviam outros pratos da culinária italiana.

O movimento era intenso, uma vez que além de servir aos fregueses do Restaurante, os marujos cozinheiros tinham que atender aos fregueses que encomendavam pizzas e massas que levavam para casa. Atenciosos e corteses, os italianos logo ganharam a amizade e admiração de todos os que frequentavam o estabelecimento comercial.

Geralmente, nos fins de semana, quando o Restaurante ia cerrar suas portas, os frequentadores mais assíduos, acostumados a ficar até mais tarde na rua, levavam instrumentos musicais que eram tocados pelo “Cavaco Manhoso”, ou por outro musicista, e sentavam-se com os marinheiros, quando então Bartolo e Alberto, entre os fregueses e amigos, demonstravam seus pendores musicais, cantando cançonetas italianas e nostálgicas músicas que os faziam recordar da pátria longínqua.

O tempo foi passando e terminou a Guerra. Os nossos amigos, saudosos da pátria e dos entes queridos que haviam ficado além mar, aguardavam com ansiedade o retorno para o seio de suas famílias.

Na véspera da partida, Alberto e Bartolo fizeram uma pequena festa de despedida, e prometeram não deixar de se comunicar com os amigos que aqui ficaram.

E assim, no dia 01 de agosto de 1946, os dois marinheiros embarcaram de volta à velha Itália. O terceiro deles, Giorgio Riga, não acompanhou seus companheiros. Permaneceu na terra que o encantara e, como era solteiro, contraiu núpcias com uma bragantina, a Srta. Odete Francisco.

A princípio montou um restaurante em sociedade com seu cunhado Marçal Francisco, num prédio que foi demolido para a construção do Edifício Stela Maris. Depois, instalou seu restaurante junto ao Bar Daltrini.

Com a construção do Prédio Dr. Aguiar Leme’, na Praça Raul Leme nº 104, Giorgio Riga abriu o Restaurante Riga, onde permaneceu até a sua morte, no ano de 1964. Ele foi sepultado em solo bragantino, terra em que foi acolhido com tanto carinho e considerava como sua segunda pátria.
Conheci bem o Giorgio Riga e com ele e sua esposa mantive estreita amizade durante a existência de ambos. Era uma ótima pessoa, um cavalheiro, dono de uma honestidade a toda prova.

Essa é a historia da qual somente alguns poucos dos meus contemporâneos se recordam. E aconteceu com três marinheiros italianos que, por uma ironia do destino estavam a trabalho no Brasil no dia em que o nosso país declarou guerra aos países totalitários. Vieram morar em nossa cidade e aqui construíram em pouco tempo um grande círculo de amizades.

Lá na Itália, os descendentes de Alberto e Bartolo devem conhecer esta história do tempo em que eles aqui viveram. E talvez um dia, ainda venham conhecer a cidade que agasalhou os seus ascendentes com carinho e afeto, e de onde, sem dúvida alguma, devem ter tido boas recordações, não só pela acolhida que lhes foi proporcionada pela nossa gente, como também pelas amizades que granjearam durante o tempo em que aqui permaneceram.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.