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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Igrejinha
Sábado,  15 JUL 2017
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 Utilizo aqui o termo igrejinha com o sentido de panelinha: grupo de pessoas que se unem com objetivos diversos e que não permitem a participação de novas pessoas. A conversa num pequeno grupo, mesmo que isso se dê no contexto de muitas outras pessoas presentes, é agradável para os participantes.

No entanto, causa estranheza e incomoda aqueles que estão no mesmo ambiente. Igrejinha não é coisa rara, acontece no nosso cotidiano, nos mais diversos ambientes. Sejam eles comerciais, familiares, escolares, eclesiais, políticos e, inclusive, em rodas de amigos.

Fui outro dia com alguma pressa numa grande loja, moderna, com grande variedade de produtos, organizada, dependente de um grande número de funcionários que certamente passaram por vários treinamentos. De dez caixas, apenas uma estava operando.

Ao lado dela estava um colega conversando. Dois ou três grupos, com seus belos uniformes de trabalho, conversavam animadamente na área dos caixas. Havia algum equívoco na programação de almoço e descanso dos funcionários. Estavam ali pelo menos três panelinhas. A animação dos funcionários era diretamente proporcional à irritação dos clientes, apressados ou não.

Isso é muito comum. Em diversos estabelecimentos comerciais isso ocorre, principalmente quando o movimento está fraco. A animação das igrejinhas é grande, a qualidade do atendimento decai. A qualidade do produto, o preço adequado e o bom atendimento são qualidades que incidem fortemente sobre nossas decisões de compra. Alguns clientes não compram quando o atendimento é displicente, mesmo quando os produtos são bons e os preços adequados.

A panelinha também ocorre com grande frequência em ambientes religiosos. É muito gostoso conversar com antigos confrades. Há sempre muita coisa a ser compartilhada. Mas é necessária muita atenção àqueles que estão chegando pela primeira vez e para aqueles que começaram a frequentar reuniões ou celebrações há pouco tempo.

A acolhida é fundamental. Não é tarefa muito simples, requer deixar o conforto da igrejinha, abrir-se ao novo, criar espaço para a sua movimentação. O que se deseja em ambientes religiosos é vida comunitária. Comunidade é um conjunto de indivíduos que vivem juntos na mesma área e que, em geral, interagem ou dependem um dos outros para existir, crescer e realizar seus objetivos comuns.

Já dizia Jesus: “E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também. E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam” (Evangelho de Lucas 6:31,32).

Quando alguém chega novato numa empresa ou repartição pública, também percebe que não é fácil circular entre as diversas panelinhas existentes. Passados os tapinhas nas costas dos primeiros dias, logo despontam com força as barreiras dos grupinhos fechados, invisíveis, mas impenetráveis. Isso ocorre de uma forma quase inconsciente.

O conforto da mesmice vivida nas panelinhas atrapalha a movimentação na direção da acolhida ao novato. Quando este apresenta alguma ameaça, por sua competência técnica ou por ter cargo um pouco mais alto, o fechamento do grupo antigo pode ser ainda mais acentuado.

Nas reuniões familiares, esse fenômeno também está muito presente. A familiaridade pode ser maior entre alguns membros. Outros ficam como que excluídos daquilo que está ocorrendo na reunião para a qual todos foram convidados. Cabem então duas atitudes.

Os mais entrosados, animados e comunicativos podem abrir espaços, inserindo aqueles que estão isolados. De outro lado, cabe aos tímidos juntar um pouco mais de coragem e circular entre os demais. Aos membros de panelinhas pede-se sensibilidade aos demais. Aos tímidos, um pouco de ousadia faz toda a diferença.