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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


A revolução de 9 de julho de 1932 e a participação de Bragança Paulista
Quarta-Feira,  05 JUL 2017
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 A crise do capitalismo no ano de 1929 afetou a economia cafeeira brasileira, que era quase totalmente voltada para o comércio externo. A esse fator somaram-se as revoltas tenentistas contra a oligarquia dominante e as agitações operárias. Essa crise foi fatal para o fim da República Velha e a política de valorização do café é posta abaixo.

Além disso, a questão sucessória se coloca em 1930. Esperava-se que o presidente Washington Luiz indicasse Antônio Carlos, governador (naquela época chamado presidente) de Minas Gerais para sucedê-lo, o que não aconteceu. Antônio Carlos promove a Aliança Liberal (MG e RS), que lança a candidatura de Getulio Vargas à Presidência da República.

Apesar de tocar bem fundo na massa urbana, a Aliança Liberal, nas eleições realizadas em 1º de março de 1.930, viu-se derrotada pelo candidato paulista Júlio Prestes.

O inconformismo com o resultado das eleições dá origem ao movimento que depôs Washington Luiz em 24 de outubro de 1.930 e entregou a chefia do Governo Provisório a Getulio Vargas em 03 de novembro de 1.930.

O decreto n.º 19.398 define as atribuições do novo governo e ratifica as medidas tomadas pela Junta Governativa, confirmando a dissolução do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras Municipais. Ressalte-se que naquela época, o Prefeito era um vereador escolhido pela Câmara Municipal e dessa forma, o mesmo também seria deposto, o que veio a acontecer nesta cidade, quando, em nome do movimento, foi empossado o major Benedito Rodrigues Moreira como Prefeito.

Pouco menos de 3 meses depois, o cargo de Prefeito Municipal voltou às mãos de Raul de Aguiar Leme, que havia sido afastado em novembro de 1930.

As ocorrências de 1930 puseram fim à estrutura republicana criada na década de 1890. Havia concordância quase unânime a respeito da necessidade de mudanças no sistema político brasileiro. O governo provisório de Getulio Vargas contava com o apoio de industriais, da classe média, dos tenentes e ainda contou com maior ingresso de capital inglês no mercado nacional.

Contrários a isso, os paulistas começaram a se movimentar contra a ditadura Vargas e os estudantes prepararam uma série de manifestações contra Getulio Vargas, que eclodiram por toda a capital, num clima de crescente revolta, no dia 23 de maio de 1932. Um grupo tentou invadir a Liga Revolucionária, uma célula da Revolução de 1930, organização favorável ao regime de Getúlio Vargas situada nas proximidades da Praça da República.

Os governistas da Liga resistiram com armas e quatro invasores acabaram assassinados: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade. Três morreram durante o confronto. O quarto morreu algum tempo depois, em virtude dos ferimentos. Um quinto ferido, o estudante Orlando de Oliveira Alvarenga, morreu dali a três meses e, por esse motivo, não teve seu nome associado ao movimento.

As iniciais de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo formaram a sigla MMDC, que passou a representar uma organização civil clandestina que, entre outras atividades, oferecia treinamento militar aos paulistas que aderiram ao movimento.

Assim surgiu o 9 de julho de 1932. Eclodiu o movimento voluntário, que foi a mola propulsora do gigantesco movimento armado que levaria às trincheiras não só a nossa mocidade, mas. muitos chefes de família, que irmanados, não aceitavam as medidas tomadas pelo governo federal, que restringiam as liberdades.

Bragança Paulista também deixou-se levar pela onda de patriotismo, a exemplo de todas as demais cidades paulistas.

O ecoar dos clarins despertou o povo bragantino. Nossos jovens desfilaram pelas ruas da cidade, tornando numeroso o pelotão de voluntários decididos a defender São Paulo.

No dia da partida, 124 voluntários bragantinos, na Praça José Bonifácio, defronte ao prédio do hoje desaparecido Paço Municipal, caminhões da 5ª Companhia do Batalhão Bahia, se apresentaram para o transporte daquele grupo, sendo que alguns deles tombariam mortalmente, tão logo chegassem ao local de combate.

Naquele dia, a senhorita Mariinha Chavasco, pertencente a tradicional família local, foi escolhida a madrinha dos voluntários, em homenagem às mães, às esposas, às noivas e namoradas dos voluntários, tendo recebido a faixa das mãos do Prefeito Municipal Raul de Aguiar Leme.

Dentre tantos que se alistaram para defender São Paulo, encontravam-se os jovens José de Assis Gonçalves Jr. (Assisinho) que mais tarde foi Prefeito da cidade, seu irmão Gentil Assis, os irmãos Toledo Leme: Dirceu, Dorival e Renato, Afonso Peluso, Chico Zamper, meu tio Luiz Zulmiro Chiarion, Helio Franco de Oliveira, Antonio Abrahão, Bibi Camargo Gonçalves, Milad Abrahão (Oadir João), Abilio de Oliveira Degue, Benedito Augusto de Mello (Dito Sapo) e outros, cujos nomes ficaram gravados nos anais históricos da revolução de 1932.

Lá tombaram Walter Scaglioni, Elias Bedran Antonio dos Santos, Benedito Lourenço Bueno, Celso de Almeida Sena, Cicero Lamartine da Silva Leme, Antonio Esteves, Antonio Rodrigues Moreira, Dulcidio Camargo Gonçalves, José Marques Ginez e outros desconhecidos cujos nomes não constavam da lista de voluntários, mas tomaram parte nos combates onde perderam suas vidas.

E assim, cidades do Vale da Paraíba sentiram o pisar forte das botas dos heróis bragantinos, que após muita luta, agasalhando na lembrança de seu feito a esperança da sua volta, voltaram para seus lares, para alegria de seus amigos e familiares, honrando as tradições de nossa gente e conservando no alto o nome desta terra e de sua gente.

O feito desses nossos co-irmãos em defesa da liberdade, que anos mais tarde tornaria realidade, também faz parte da nossa história.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.