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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Eliminação de barreiras
Sábado,  24 JUN 2017
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 Durante dois anos, empurrei diariamente cadeira de rodas em várias cidades e em diferentes tipos de ambientes públicos. Conheci então diferentes barreiras, algumas intransponíveis. Experimentei atitudes espetaculares de atenção, compreensão e apoio. Tristemente, não foram poucas as vezes em que me defrontei com atitudes de desligamento e falta de atenção, quando não, de alguma agressividade.

Certo dia, encontrei-me com um candidato a vereador na ‘Rua do Comércio’. Ele vinha com seus folhetos, seguido de um assessor. Eu conduzia minha filha em sua cadeira de rodas. Encontramo-nos numa calçada estreita e inclinada, junto a um poste.

Quem vinha precisava esperar aquele que ia. Para a cadeira de rodas não havia espaço, era necessário descer para o meio da rua para continuar o percurso. Sugeri ao candidato a vereador que esse era um tema importante a ser patrocinado por ele.

Estive com a mesma cadeira de rodas em Buenos Aires. Surpreendeu-me a delicadeza dos portenhos em relação ao deficiente físico. Chegando ao hotel reservado, observei um corre-corre. Logo veio o gerente pedindo mil desculpas enquanto informava que não seria possível acolher-nos naquele hotel. Simultaneamente, pedia-nos a gentileza de esperar um pouco pois já estava procurando vaga em outro hotel, preparado para a nossa situação limitada de locomoção e banho.

A cada 10 ou 15 minutos voltava alguém para dizer que ficássemos tranquilos visto que tudo estava caminhando bem. Graciosamente, um carro do hotel levou-nos ao novo alojamento. Essa mesma atitude foi uma constante percebida em lojas, taxis, lanchonetes, museus, aeroporto, etc.

Nessa mesma viagem, de barco fomos até Colônia no Uruguai para desfrutar de um pacote que incluía barco, city tour e almoço. Não solicitamos acolhida ou transporte especial. Chegando à cidadezinha, a guia turística logo viu nossa situação.

Aproximou-se com um pedido de desculpas, dizendo que não tinha sido notificada e acrescentando que ia providenciar uma van adaptada e que logo nos juntaríamos ao pessoal que estava no ônibus.

Esse é o espírito da lei 13.146/15 ou Estatuto da Pessoa com Deficiência. Ela tem peso de emenda constitucional: primeiro o Governo Brasileiro assinou convenção da ONU, depois em dois turnos na Câmara e no Senado Federal, recebeu votação superior a 3/5 dos congressistas, sendo finalmente sancionada pelo Presidente da República.

Essa lei tem por objetivo assegurar e promover condições de igualdade, pleno exercício dos direitos e das liberdades. Requer a superação de barreiras físicas e de atitudes que não permitem ao deficiente a igualdade de condições e a plena participação.

Propõe a acessibilidade, o desenho universal de prédios e equipamentos urbanos, a tecnologia assistida, a comunicação (Libra, Braille, tátil) às pessoas com alguma deficiência física, motora, sensorial, emocional ou intelectual.

As vagas reservadas para estacionamento de veículos, os banheiros adaptados, as filas preferenciais, as adaptações de prédios e equipamentos urbanos, as rampas, as vagas reservadas em concursos, as vagas de emprego proporcionais ao número de funcionários, tudo isso e mais estão a serviço da plena igualdade e da não-discriminação.

Além das barreiras físicas, nossas atitudes precisam ser sempre de acolhimento e apoio. A eliminação de barreiras físicas, a acolhida, tratamento igualitário e apoio às pessoas deficientes dependem da mudança na nossa maneira de ver problemas que atingem milhões de brasileiros, assim como de novas atitudes.