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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Recordar é viver. E vamos àquela festança tão aguardada por todos
Sábado,  17 JUN 2017
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 Junho: o frio é normal, o tempo chuvoso não é rotina, as festas juninas não são mais aquelas festas juninas tradicionais das fazendas de antigamente, que tinham a sua “colônia” numerosa, que povoavam e davam vida à zona rural, incluindo os fazendeiros que lá moravam nos casarões das suas sedes.

As festas juninas aconteciam nos terreirões das fazendas de café, decorados com arcos de bambu e bandeirinhas de papel de seda colorido. Os mastros com Santo Antônio, São João e São Pedro permaneciam erguidos durante o mês de junho, enfeitados com pencas de laranja e cipó de São João.

RECORDAR É VIVER. E VAMOS ÀQUELA FESTANÇA TÃO AGUARDADA POR TODOS.

Os rojões com o seu espocar abriam as festas e os busca-pés sulcavam por entre os pés da “molecada”. As chamas da fogueira tremulavam ao vento, salpicadas pelas fagulhas. A alegria era contagiante.

Violas e sanfonas animavam o arrasta-pé. Fartura de quentão preparado nos caldeirões de ferro e servido nas chaleironas, era o cheiro da festa. Os doces de batata-roxa, de abóbora, os pés de moleque, paçoca, pipoca, pinhão cozido, os bolos de fubá se espalhavam pela enorme mesa, era o self service cortesia da casa. Não faltavam os leilões.

As prendas eram ofertas dos moradores do bairro e das fazendas. Tinha de tudo: leitão, leitoa, frango, pato, todos vivos e também os assados nas fornalhas, desde as carnes até os pães, broas e bolos. Os cartuchos decorados com papel franjado e cheios de guloseimas eram as atrações da criançada.

Os leilões completavam as festas. Era construído o “púlpito” para o leiloeiro. O momento era esperado por todos. Todos queriam ver suas prendas arrematadas. O leiloeiro no “púlpito” fazia pose, entonava a voz e iniciava: “Quanto me dão por esta cesta de broas de fubá?” Vinham as refregas e chegava a hora do martelo: “Dou-lhe uma! Dou-lhe duas! E dou-lhe trêeees”.

E o ganhador saía ovacionado com a sua prenda. E o leilão prosseguia. Só nos leilões é que circulava dinheiro, para se cumprir o ritual - o que se arrecadava ia para manutenção das capelas.

Essas eram as “festas juninas” tradicionais, verdadeiras festas/família, que se traduziam em confraternização entre os fazendeiros e todos os seus colonos e a comunidade do bairro. É uma pena que o “modus vivendi” da zona rural está se perdendo, está sendo engolido pelo meio urbano, pelos meios de comunicação, pela internet, que faz o mundo caber na telinha do celular. Tudo está sendo diluído, esquecido.

As rezas, as benzedeiras, os “contadô de causos”, as cantorias e rezas da “guarda” dos defuntos, a linguagem matemática de pesos e medidas: uma arroba, uma besta de café, uma mão de milho, um alqueire de feijão, um litro de chão, um alqueire de terra, as varas para medição etc.

As sedes das fazendas, quando mantidas, perderam o seu moinho de fubá, a máquina de beneficiar café, a bomba carneiro, a roda d’água com o seu dínamo, o velho sino para chamar os colonos para a lida, o fogão a lenha foi aposentado, o terreiro cheio de aves ficou lá atráaas.

A linguagem campesina, quase um dialeto, praticamente se perdeu; alguém já ouviu falar “lá em riba”? Nem ouviu, nem sabe o significado. Da sabedoria popular pouco existe: nas ervas medicinais; influência da lua: na prenhez e na cria dos animais, no corte de madeira, na poda das plantas, nas semeaduras; previsão tempo: conforme o comportamento dos animais, da cor do por do sol, da lua coroada, das nuvens em flocos, etc.etc.etc. Assuntos que dão uma tese recheada de saber e curiosidade e de beleza também.

Pois é, hoje mudamos o rumo da nossa “Conversa” para dizer que a nossa infância foi uma mescla de vida urbana e de vida rural, passamos por experiências enriquecedoras, desde aquela horta com produção diversificada, até o terreiro que abrigava a secagem do café. Hoje as pastagens substituíram as extensas áreas de café. Passou. . . Os cafezais migraram.

Toda essa conversa suscitou perguntas, considerações: O COMDEPAHC – Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural de nossa Bragança tem o cadastro patrimonial dos bens sediados na zona rural que merecem apoio e preservação para que não se perca a nossa história e memória?

A nossa zona rural precisa se manter viva nas suas origens. Não basta pensar apenas no turismo lucrativo, na especulação imobiliária via loteamentos, sem antes obedecer as normas de ocupação e parcelamento do solo.

Será que os nobres vereadores conhecem a nossa zona rural, os seus marcos divisórios, a forma da sua ocupação, as suas potencialidades? Já fiscalizaram como o Poder Público está dispensando o seu atendimento ao cidadão proprietário rural, o empresário rural, o morador rural, o trabalhador rural? Em saúde, educação, transporte público, estradas, em meios de comunicação, em energia elétrica, m lazer, em esporte, em cultura, etc.etc.

O que estão fazendo os secretários municipais para alavancar a nossa zona rural? Não basta enxergar o imenso horizonte multicor do por do sol sentado na cadeira confortável do seu gabinete. É preciso agir! Há planos e planejamentos encorpados para a ação?

O cidadão da zona rural precisa ser inteiro. Precisa e merece todo respeito. Ele é mais importante que o cidadão urbano, que ao sentar-se à mesa nunca se lembra daquele que plantou, colheu, enfrentou intempéries, pragas, atoleiros nas estradas para saciar a fome de todos. E apesar de tudo isso ele continua acreditando.

E ainda tem que ouvir que o tomate, o feijão ou outros alimentos são responsáveis pela inflação. Como!!! Vale o plágio: “O homem do campo é antes de tudo um forte”. Bem, podemos dizer que o homem do campo é um “sertanejo”. E quem escreveu esse livro famoso da literatura brasileira?

Pois é, de um assunto para outro, voltamos à nossa proposta:

A C O R D A B R A G A N Ç A ! ! !