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BragançaPaulista17 Jan 2018


Colunistas


Fuga impossível
Sábado,  17 JUN 2017
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 O ser humano atravessa sua existência neste mundo como um Dr. Kimble, personagem da série de TV intitulada “O Fugitivo”, sucesso em 1963-67, depois copiada num filme em 1993. Na série televisa, o Dr. Kimble é condenado à morte pelo assassinato de sua esposa. Ele se diz inocente e quer provar isso. No caminho para a penitenciária, o trem que o conduzia descarrila e Dr. Kimble foge.

No entanto, o policial Gerard se coloca no constante encalço do Dr. Kimble, sendo então empurrado para uma fuga sem fim, sempre pressionado, podendo permanecer por breve tempo em cada cidade a que chega.

A narrativa de Gênesis informa que, logo após seu primeiro ato de pecado no Jardim do Éden, quando decidiu ter uma vida autônoma de Deus, rompendo com Ele, o ser humano tentou fugir e se esconder de Deus (Gn 3:8). À semelhança do Dr. Kimble, essa saga humana iniciada no Éden, infindável e deletéria, permanece até hoje. Ela acontece em muitas formas e também com consequências daninhas.

A fuga é, às vezes, manifesta numa assumida negação de Deus. Porém, ela também acontece nas muitas formas religiosas, com suas propostas de se tratar com Deus nos termos e entendimentos humanos, domesticando Deus conforme a vontade, métodos e recursos humanos.

É o caso das diversas religiões humanas. E, tristemente, ela também se dá por paliativos e anestésicos, indo do entretenimento, como a festa e viagem, até meios como as drogas ilegais ou legais, incluindo o álcool.

A exceção dessa fuga é achada numa minoria que a interrompe. Ela inclui um personagem de dez séculos antes de Cristo - rei Davi. No Salmo 139 no verso 7 (Bíblia), ele perguntou a Deus: “Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? “ São duas perguntas retóricas. Elas não estão realmente indagando, mas usando a indagação para fazer uma afirmação – não há para onde fugir de Deus. Davi chega à paz com esse fato.

Antes de chegar a essas perguntas nesse Salmo, o autor reflete sobre a realidade de Deus e do ser humano diante dele: “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos são bem conhecidos por ti. “ É o Deus do conhecimento absoluto”.

Aceite-se ou não, a verdade é que Deus é onisciente e onipresente. Não há fato que Ele desconheça e não há lugar em que Ele não esteja. As empresas de investigação dizem que atualmente é possível se traçar os passos de qualquer pessoa inserida na sociedade desenvolvida.

É possível se saber tanto as preferências e negócios da pessoa, como os lugares onde esteve. Isso se consegue unindo informações do cartão de crédito, notas fiscais, navegação na internet, imposto de renda, câmeras de vigilância, radares de trânsito, pedágios automáticos, etc. Se o conhecimento tecnológico humano pode conhecer tanto sobre a privacidade de uma pessoa, Deus certamente pode conhecer plenamente.

Conhecer a si mesmo não acontece através de uma autorreflexão. E nem por racionalizações diante de um terapeuta. O coração humano é por demais enganoso, manipulador, tendencioso e profundo. Por isso somente Deus pode fornecer esse conhecimento. O autor do Salmo acima sabe bem disso. E ele ora: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; ... e conhece as minhas inquietações. Vê se minha conduta algo te ofende...”.

Ao se encontrar com Deus, de alma aberta, tudo é exposto. Tanto as inquietações, como aquilo que ofende a Deus. Tanto os distúrbios emocionais-psicológicos, como os erros morais. E esse conhecer começa primeiramente com as escolhas e atitudes do próprio indivíduo e não com as de outrem – “Sonda-me... prova-me...”. Por isso o ser humano prefere um encontro com o terapeuta do que com Deus.

Porém, o ser humano, sempre obstinado e irreconciliável, insiste em fugir de Deus, construindo uma existência longe da vontade de Deus, ainda que às vezes falando que crê em Deus. Mas um Deus domesticado, então, não o verdadeiro Deus.

O promotor Igor Ferreira, condenado pelo assassinato de sua esposa, fugiu da Justiça em 2001. Ele se entregou em 2009, mas exausto, doente, com dentes arruinados e pesando 50 kg. Ser fugitivo tem seu preço. E ser fugitivo de Deus não é diferente.

O ser humano foi criado para viver com Deus e para Deus. O fugitivo ainda se achará em estado lamentável, mesmo que o sublima e disfarce. Grande é o dano de uma vida sem Deus , autocentrada, com interior vazio e falta de paz.

Porém, há uma diferença radical entre os fugitivos da justiça humana e os fugitivos de Deus. Quem interrompe sua fuga de Deus, e se entrega a Ele, não encontrará um Deus preparado para aplicar uma pena e castigo. O salmista Davi termina o Salmo acima assim: Sonda-me ó Deus, e conhece o meu coração... vê se em minha conduta algo te ofende e dirige-me pelo caminho eterno”.

O salmista clama: “conhece o meu coração”. Na língua original desse salmo, o Hebraico, o verbo “conhecer” é usado para a condição que vai além de apenas saber uma dada informação. O verbo envolve o saber numa dimensão relacional. Todo relacionamento verdadeiro exige um conhecer. Rompendo com a fuga, o salmista quer acertar suas misérias com Deus para ser recebido e andar com um Deus gracioso, perdoador e restaurador... “conhece o meu coração. “ Por isso o salmista também clama: “ Guia-me pelo caminho eterno”.

Esse é o Deus revelado em Jesus Cristo, aquele que vai até a cruz para propiciar seu perdão absoluto e colocar o fugitivo no caminho, mas no caminho eterno. Uma vida radical e maravilhosamente diferente. Jesus Cristo, Deus conosco e por nós, afirmou algo que ninguém jamais o fez, ou o poderia fazer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai (Deus) se não for por mim” (João 14:6).