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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


A festa de Corpus Christi na década de 1970
Quarta-Feira,  14 JUN 2017
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 A festa de Corpus Christi sempre foi reverenciada na cidade. Vasos e toalhas nas janelas, flores e folhas pelas ruas por onde o Cristo exposto na hóstia consagrada era visto pelas pessoas.

Na tradição bragantina, suas ruas centrais se destacavam pelo esmero com os enfeites que formavam um imenso tapete composto de materiais dos mais criativos.

Logo que passava a Páscoa, as donas das casas situadas nas ruas por onde passava a procissão já começavam a guardar o pó de café usado que os mais jovens recolhiam, colocavam para secar e guardavam.

Outros se dedicavam a conseguir e tingir de diversas tonalidades a serragem vinda das serrarias da cidade. Também eram guardadas cascas de ovos, tampas de garrafas (não existiam as latinhas de alumínio), muitas vezes até farinha de trigo e palha de milho para depois, tudo isto, se tornar obra de grande valor artesanal.

Do mesmo modo que se coletavam materiais, os jovens junto dos adultos de cada setor, em destaque a Rua Coronel. Osório e os primeiros quarteirões da Rua Coronel. João Leme, onde residíamos desde então, participavam desse trabalho, no qual sobressaia a criatividade de cada um.

Escolhiam desenhos alusivos ao tema, como cachos de uva, cálice e a hóstia, barrados elaborados, etc., ampliavam de acordo com o tamanho necessário e se faziam os moldes em papelão para, na madrugada da solene procissão, iniciar os trabalhos em mutirão.

Chegando o grande dia, havia pelas escolas católicas, a exigência de que seus alunos participassem da procissão que acontecia geralmente às 14 horas. Era preciso aproveitar o tempo. Na Rua Coronel Osório havia na antiga Pensão do Abrão Jorge Romenos, hoje Edifício Dom João VI, um local onde os que ajudavam na montagem dos tapetes onde se serviam de café ou de uma bebida para esquentar.

As noites desta época do ano são muito frias, mas este era um dos trabalhos que mais motivava os jovens que tinham a oportunidade de vivenciar atividades diferentes que, com certeza, marcaram suas vidas positivamente.

Não havia vizinhos desconhecidos, nem aqueles que se queixavam da sujeira ou do barulho, todos formavam uma comunidade solidária, a meu ver, objetivo maior da celebração do Corpus Christi.

Quando o sol da manhã já estava a pino, os trabalhos estavam se finalizando e era a hora de visitar e comentar os trabalhos de cada local, pois tudo até então era feito em segredo. Havia uma certa competição sadia, mas acirrada nos locais citados. Meus filhos, como os de muitos de nossos contemporâneos, fizeram parte desta geração que recebeu da família e da catequese os valores cristãos e a motivação para, por anos a fio, dedicarem tempo e trabalho para as coisas de Deus.

A cidade foi crescendo, aumentaram os habitantes e, na década de 1990, as procissões que caminhavam pelas ruas da cidade foram substituídas por atividade celebrativada no campo do Clube Atlético Bragantino.

A atividade era muito bem organizada, reunia as diversas paróquias da diocese, muitos com bandeirolas coloridas ou camisetas diferenciando seu grupo e, ao final, quando o sol já se punha, as luzes das velas que cada pessoa recebia era acesa para saudar o Corpo do Cristo presente naquele local na hóstia consagrada.

Depois de alguns anos, com a interdição do campo do Clube Atlético Bragantino pelo risco de desabamento das arquibancadas, a cerimônia festiva foi se enfraquecendo até se tornar atualmente e, infelizmente, um feriado para viagem, esquecendo-se de dar ao jovem a oportunidade de aprender o significado da data.

Todos os que tiveram a ventura de participar de maneira brilhante dessa atividade devem se recordar com imensa saudade daqueles tempos em que todos se irmanavam para um maior brilho das festividades dedicadas a Corpus Christi.

E como não foram mais confeccionados aqueles lindos tapetes, os jovens daquela época, muitos deles atualmente chefes de família, não tiveram oportunidade de passar aos seus descendentes as técnicas deste trabalho, que levou tantos a fortalecerem sua fé cristã e que por isso se sentiram parte do Corpo de Cristo e da Igreja.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.