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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Do começo ao fim
Sábado,  03 JUN 2017
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 Estive há poucos dias no meio de uma mudança. Naquele momento, tudo ainda estava fora de lugar. Observei que as pessoas estavam cansadas, dando voltas pouco efetivas no meio de caixas, móveis desmontados, roupas e utensílios.

Dariam tudo para que as coisas se arrumassem instantaneamente como num passe de mágica. Percebi que o caos ainda era generalizado, demandando muito trabalho e intensa persistência para que a esperada nova ordem se implantasse.

Algo muito semelhante está acontecendo com os brasileiros. Sentem-se todos em meio a uma mudança na forma de fazer a política e de fazer negócios. Muitos gostariam que tudo fosse mais rápido, outros entendem que o processo é lento mesmo, não poucos torcem para que a poeira abaixe e tudo fique mais ou menos do jeito que está. Se a arrumação de uma casa dá muito trabalho, o que dizer da arrumação de um país?

É muito mais complexo, porque muita coisa está em jogo ao mesmo tempo: corrupção ativa em muitas empresas grandes e pequenas; corrupção passiva nos três poderes em nível municipal, estadual e federal; processos judiciais que se perdem no tempo; necessidade de aumentar a produção e a produtividades conforme padrões internacionais; enfrentamento do desemprego; reforma da previdência; saneamento básico; graves problemas na área da saúde; baixo desempenho educacional; falta de segurança e alta criminalidade. Muitas são as frentes a serem atacadas e solucionadas.

Embora as instituições estejam funcionando razoavelmente, muitas são as correções a serem feitas, não poucas, as punições. Ocorre então que enquanto muitos desejam mudanças profundas, outros, que não são a maioria, mas são poderosos, querem a continuidade do jeito corrupto de fazer as coisas. O mal é ardiloso, cheio de artimanhas, lança raízes profundas, tudo faz para sufocar o bem comum.

As mudanças atuais estão ocorrendo na medida em que escândalos estão vindo à tona. As correções estão sendo feitas a posteriori, a partir das consequências dos desvios de dinheiro público, na medida em que negociatas são evidenciadas para o grande público. Há uma mudança ainda mais profunda e difícil a ser feita. Trata-se da mudança cultural, que depende de uma educação centrada em valores, tais como a solidariedade, a justiça e a honestidade.

A capacidade de levar vantagem em tudo é um valor ainda muito presente em nossas famílias, consequentemente em nossa sociedade. Também a tolerância diante de delitos presenciados diariamente está muito presente em nosso modo de agir. A verdadeira mudança vem de dentro para fora, vai dos pequenos para os grandes atos.

Quem gosta de levar vantagem em alguns reais, não terá dificuldade de fazer o mesmo se tiver acesso a alguns milhares de reais. Quem abusa da velocidade onde a fiscalização não está presente, não terá dificuldades em correr para oportunidades de ganhar muito, mesmo que de forma desonesta.

O mesmo podemos falar do ato de furar filas, estacionar em locais reservados a idosos e deficientes, beneficiar-se do erro de um caixa, colar na prova escolar, assinar trabalho escolar para o qual não contribuiu, ou permitir que o colega faça isso, e outros desvios de conduta presentes em nosso cotidiano.

Estamos sim no meio de uma mudança. Inédita sob muitos aspectos. Não podemos cansar antes da sua finalização. O primeiro passo está num procedimento individual ético em todas as dimensões do nosso dia a dia. Passo importante está na postura crítica diante de qualquer desvio observado ao nosso redor.

Passo definitivo está na vigilância diante do saneamento em curso nos ambientes econômicos, políticos e de governo. Precisamos ir até o fim para um Brasil bom, adequado e saudável para todos os brasileiros. A mudança não pode parar no meio.