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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Monsenhor Kohly: Um sacerdote como poucos
Quinta-Feira,  01 JUN 2017
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 Quando criança, frequentando a Sé Catedral, conheci e passei a admirar a figura de um verdadeiro sacerdote: o Monsenhor Juvenal Augusto de Toledo Kohly. Um tanto obeso, tez morena escura, óculos grossos, cabelos brancos cortados bem rentes, batina ampla e um inseparável guarda-chuva que lhe servia como bengala e “guarda-sol”.

Alma filantrópica, coração caritativo aberto a todos, confortava as ovelhas de seu rebanho não só espiritualmente como também materialmente, pois o pouco que possuía distribuía entre os pobres.

Nas aulas de catecismo que D. Placidia Rosas nos ministrava, a sua presença era constante para orientar-nos e para espargir seus sábios conselhos arrancados com meiguice de sua invejável e fecunda cultura.

Durante todo o ano esse querido sacerdote fazia questão que todas as festas religiosas fossem comemoradas com a maior solenidade possível. As novenas que antecipavam as comemorações litúrgicas eram realizadas com a presença do coro e com a colaboração do grupo orquestral que em todas as datas religiosas abrilhantava essas comemorações. As procissões contavam com a presença de todas as congregações religiosas e o respeito e a ordem predominavam em todos os aspectos.

Antes da realização das procissões, a seu pedido, a polícia solicitava aos proprietários de veículos que estacionavam no trajeto do préstito que recolhessem os mesmos, deixando livre as ruas para a passagem da procissão. Atrás do último andor e dos sacerdotes que presidiam aquele ato religioso, policiais, para maior ordem, dividiam o espaço segurando o povo que acompanhava a procissão.

Teólogo profundo, matemático, mestre da divina arte que é a música, Padre Kohly (como gostava de ser chamado, pois apesar de ser elevado à dignidade de Monsenhor, sempre sentia que havia maior docilidade na expressão “padre”), era de uma cultura vasta, sólida, irradiava sabedoria!

Era um sacerdote completo. Aos seus amplos conhecimentos, encaixavam-se os dons da bondade, humildade e generosidade, motivo pelo qual seus paroquianos o amavam, e ele correspondia a esse afeto.

Padre Kohly apreciava um prato de leite com farinha. Quando celebrava missa nas capelas dos sítios, os festeiros sempre lhe serviam a sua sobremesa predileta.

Certa vez, numa fazenda do Bairro do Bom Retiro, de propriedade de José Hermenegildo de Oliveira, que era casado com uma prima de minha mãe, a saudosa Esther Leme de Oliveira, fomos assistir a inauguração da capela da fazenda.

Depois da missa celebrada pelo Padre Kohly, foi servido um almoço ao sacerdote e aos demais convidados. Lembro-me perfeitamente, que após a refeição, a esposa do fazendeiro mandou trazer um garrafão de leite e uma vasilha com farinha. Padre Kohly exclamou para que todos os presentes o ouvissem: A vida resume-se nisto: num prato de leite com farinha. E pôs-se a saborear a sobremesa que tanto gostava.

O Padre Kohly possuía um lado pitoresco. Humano como todos, embora à primeira vista parecesse sisudo, gostava de brincar e amenizava as suas árduas responsabilidades de vigário da Catedral com uma dose de bom humor. Brincava com os coroinhas, mas quando necessário lhes chamava a atenção dentro do templo.

Após a missa que celebrava diariamente às 6h00, dirigia-se para casa onde tomava seu café matinal e logo voltava para a Catedral. Ali poderíamos encontrá-lo lendo seu Breviário, rezando um terço defronte a imagem de nossa Padroeira ou ajoelhado na Capela do Santíssimo orando ao Criador.

Embora natural de Taubaté, neste Estado de São Paulo, residiu nesta cidade durante longos anos e aqui possuía um vasto circulo de amizades.

Professor de méritos reconhecidos, na Matemática se notabilizou, tendo deixado entre outras obras, um Compendio sobre a ciência algébrica.

Numa ocasião, um grupo de seus ex-alunos resolveu homenageá-lo e esse protesto de veneração e respeito foi compartilhado por mais de duas centenas de pessoas que a ele aderiram. No dia em que foi realizada essa justa homenagem que constava de um jantar, ficou patenteado o seu valor.

Perante uma assistência numerosa, na qual se notava a presença de desembargadores, juízes e altas autoridades que foram seus discípulos, Padre Kohly saudou a todos os que ali estavam presentes, com palavras repassadas de carinho e de agradecimento a essa homenagem da qual disse não se julgar merecedor.

Seu falecimento deu-se em 03 de fevereiro de 1948, aos 77 anos de idade, ocasião em que sua residência, situada no Largo da Matriz, atual Praça Raul Leme (ao lado da Sé Catedral), tão logo foi anunciada a sua morte, ficou tomada por imenso número de pessoas que foram velar o morto.

Trasladado o seu corpo para a Catedral, foi celebrada missa de corpo presente, ficando o mesmo exposto para visitação pública até as 17h00, guardado pelos fiéis e pessoas amigas, dando-se seu sepultamento no Cemitério da Saudade.

Após a morte desta figura tão importante na história do catolicismo bragantino, foram construídos na atual Praça Raul Leme os prédios da Caixa Econômica Estadual (hoje Banco do Brasil) e do Fórum, entre os quais foi aberta uma rua, à qual foi dado o nome de Rua Monsenhor Kohly, homenageando e perpetuando a figura do estimado sacerdote na cidade em que viveu e que elegeu para ser sua morada permanente.

Com sua morte aquilo que o ilustre sacerdote fazia questão de que tudo corresse com ordem e o maior respeito e que fazia parte das comemorações religiosas naquele tempo, foi relegado ao esquecimento.

A sua lembrança permanece entre aqueles que, como nós, o conheceram e privaram de sua amizade. Dando em vida um exemplo do seu desapego para com as coisas terrenas, Padre Kohly morreu pobre. Só esse fato o distingue, o engrandece e o enobrece.

Esse era o Padre Kohly que conheci e que deve estar descansando na santa paz do Senhor, como um servo digno e fiel, que em vida soube conduzir todas as ovelhas que lhe foram confiadas, procurando sempre encaminhá-las nos ensinamentos da religião. Por tudo isto, Monsenhor Juvenal de Toledo Kohly também faz parte da nossa história.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.