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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Culpa sumida
Sábado,  27 MAI 2017
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 “Fujam todos… descobriram tudo”. Esse texto teria sido enviado anonimamente, como um trote, pelo escocês Arthur Conan Doyle, autor de “Sherlock Holmes”, para doze conhecidos dele. Também é dito que em 24 horas todos eles desapareceram, fugindo da cidade.

É lamentável que o ser humano tenha razões para fugir. Porém, muito mais lamentável é quando, ao invés de fuga, diante de fatos abundantes e evidências concretas, proliferam palavras de tantos como “não sei de nada”, “não fiz nada”, “esse valor criminoso não é meu”, “sou alma mais honesta”, “a propriedade não é minha”, “é perseguição”, “está tudo declarado legalmente”, “vou provar na justiça”, etc.

E há também a famosa bravata “estou à disposição da justiça”, como se alguém tivesse que fazer esse favor à justiça quando apanhado na contramão da lei. Enfim, a culpa já não parece incomodar ou envergonhar os cidadãos em geral, e nem os executivos e políticos dos diversos partidos enrolados com a lei. Evitam o encontro com a devida culpa com o negar, tergiversar e iludir.

Isso parece ser produto natural de uma humanidade que passou a pensar assim: culpa é mero fenômeno psicológico, verdade e moral são construções filosóficas artificiais e relativas de cada pessoa ou grupo, e responsabilidade e dever são mecanismos de forças sociais dominadoras. Então, quando em apuros, a estratégia sutil é ignorar a realidade do erro e culpa, repetindo e repetindo o discurso tergiversador até que ele prevaleça.

Quando passa a imperar esse danoso discurso astuto de inocência, é preciso discernimento aguçado para enxergar esse travestir do senso de justiça, moral e verdade. Isso requer capacidade de análise crítica sem compromisso ideológico, reação emocional e preferência partidária ou grupal.

Narra-se que o rei da Prússia, Frederick, O Grande, ao visitar uma prisão, os prisioneiros se ajoelhavam diante dele afirmando que eram inocentes aprisionados injustamente. Ao notar um prisioneiro que ficou quieto, o rei o interrogou por que estava preso. E aquele preso respondeu: “roubo à mão armada”. E perguntado se era culpado, o prisioneiro retrucou: “Sim, majestade. Eu mereço a pena que recebi”.

Então o rei ordenou ao carcereiro-mor que libertasse aquele prisioneiro, e não os outros. E justificou: “Eu não quero que esse homem culpado fique na prisão e corrompa todos esses outros inocentes”. A atual inocência de discurso é tão embusteira que, se prevalecer, acabará exigindo o tratamento através da inversão do mérito discursado.

Essa atitude de lidar com a culpa através do discurso não é nova. Lá nos primórdios, no Jardim do Éden, ao ser humano foi facultado por Deus o comer de todos frutos, exceto o fruto de uma arvore específica. Havia abundância de frutos para se deliciar, mas um único foi colocado à parte para um significado crucial.

Ao não comer aquele fruto proibido, e apenas aquele, o ser humano afirmava a centralidade e soberania de Deus, reconhecendo-o como a referência para seus pensamentos e atos. Ele via o fruto, não comia, e assim se submetia a Deus no seu íntimo.

Porém, num dado dia, após a tentação da serpente, Adão e sua esposa, Eva, comeram tal fruto, decidindo assim a romper com a submissão à centralidade e soberania de Deus. O desejo era estabelecer a si mesmos, à parte de Deus, como suas próprias referências de vida e moral. Foi ali que o ser humano proclamou sua autonomia diante de Deus, essa autonomia tão presente até hoje.

Quando confrontado por Deus sobre porque cometera aquele ato de rebelião, Adão disse que a culpa era de Eva que o induzira a assim fazer. Então, Deus questionou Eva, cuja resposta foi que a culpa era da serpente. Enfim, seus discursos visavam os transformar em vítimas sem culpa. A tergiversação passou a integrar a história humana.

Um fiscal corrupto foi orar no templo. Ele clamava em suplício e desespero: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador”. Ele foi observado por um cidadão religioso que, então, orou assim: “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros... não sou como esse fiscal corrupto”.

Cristo contou essa estória e a concluiu com este veredito: o fiscal corrupto foi para casa justificado diante de Deus, e o religioso não (Lucas 18:9-14). O ser humano e sociedade não precisam de mais discursos rabulistas, especialmente diante de tanta evidente corrupção.

O ser humano precisa de arrependimento e confissão honesta, clamando pelo único escape, que é a misericórdia de Deus provida em Cristo na morte de cruz – aquela que confronta a culpa, viabiliza perdão e transformação.